A relação entre Google e Samsung sempre foi uma das mais importantes do ecossistema Android. A gigante sul-coreana fabrica os telemóveis, relógios e tablets que colocam o software do Google nas mãos de milhões de pessoas. Mas nos bastidores, há uma mudança silenciosa: o Google está a deixar de depender dos semicondutores da Samsung, produto a produto.
O Pixel 11, apresentado hoje, marca mais um afastamento. Os novos telemóveis do Google trocaram os modems Exynos da Samsung por componentes da MediaTek concretamente, o modem M90 que trabalha em conjunto com o chip Tensor G6. Não é a primeira vez que isto acontece, mas simboliza uma tendência clara.
Da fundição aos modems: duas frentes perdidas
Durante anos, a Samsung Foundry produziu os chips Tensor que equipam os Pixel. A parceria fazia sentido: o Google queria controlar a arquitetura para machine learning e inteligência artificial nos seus dispositivos, e a Samsung tinha a capacidade de transformar essa ambição em silício real. Os modems Exynos 5400 também marcaram presença tanto no Pixel 9 de 2024 como no Pixel 10 do ano passado.
Mas o cenário mudou. O Tensor G5 já tinha sido transferido para a TSMC, o fabricante taiwanês que domina o mercado de semicondutores avançados. O Tensor G6 que estreia agora no Pixel 11 e é o primeiro chip de 2 nanómetros do Google mantém-se igualmente nas mãos da TSMC, apesar das restrições de capacidade e dos preços normalmente mais elevados que a fabricante taiwanesa pratica.

O problema não é só uma encomenda perdida
Trocar de fornecedor não é incomum na indústria tecnológica. As empresas procuram melhor desempenho, menor consumo de energia, conectividade mais eficiente ou simplesmente melhores condições económicas. O que chama a atenção aqui é o contexto: Google e Samsung trabalham lado a lado em tantas outras frentes que seria natural esperar a mesma sintonia nos componentes.
A Samsung até conseguiu melhorar significativamente os rendimentos de produção a 2 nanómetros e ganhou encomendas importantes de outros clientes para essa tecnologia. Mesmo assim, não conseguiu trazer o Google de volta. Numa indústria onde ter a tua tecnologia integrada nos produtos de amanhã vale tanto quanto a receita de hoje, perder um cliente como o Google não é apenas uma questão de faturação imediata.
Reconquistar uma empresa que já mudou de fornecedor é uma tarefa árdua. Uma vez que um fabricante integra outro chip ou modem na sua arquitetura, voltar atrás implica retrabalho, validação e risco algo que poucas empresas aceitam sem razões muito fortes.
A parceria continua, mas só onde a Samsung tem algo único
Isto não significa que Google e Samsung estejam em rota de colisão. Longe disso. No lado do software, a colaboração nunca esteve tão intensa. Os dispositivos Galaxy continuam a ser os principais embaixadores das funcionalidades de inteligência artificial do Google, e a Samsung foi escolhida como parceira preferencial para o Android XR tanto em óculos inteligentes como em headsets de realidade mista, com o Google a fornecer a plataforma de software.
Mas há um padrão: o Google trabalha com a Samsung onde a empresa sul-coreana lhe dá acesso a mercados ou categorias de produto. Já nos semicondutores, onde há alternativas viáveis, a história de colaboração deixou de ser suficiente para garantir a preferência automática.
A divisão de semicondutores da Samsung até pode estar a dominar a corrida às memórias para inteligência artificial. Mas no silício de consumo, a lição é dura: ser parceiro não é o mesmo que ser insubstituível. E o Google, pelo menos por agora, parece não precisar tanto dos chips da Samsung quanto antes.
Via: SamMobile




