
Mundial 2026: como a FIFA transformou futebol em máquina de milhões
O Mundial 2026 quebrou todos os recordes de público e receitas, mas deixou um rasto de críticas sobre preços inacessíveis, fraudes e exclusão social.
O Mundial 2026 ficará na história não apenas pela final de hoje entre Argentina e Espanha em Nova Iorque, mas sobretudo pelos números astronómicos que confirmam o futebol como um dos negócios mais lucrativos do planeta. Mais de 6,5 milhões de pessoas encheram estádios nos três países anfitriões, ultrapassando os públicos somados da Rússia e do Catar. A fasquia foi posta tão alto que nem mesmo a edição de 1994 nos Estados Unidos, com os seus 3,5 milhões de espectadores, resiste à comparação.
Números que fazem história
A ocupação média dos lugares disponíveis na fase de grupos atingiu os impressionantes 99,7%, segundo dados oficiais da FIFA. Num único dia do torneio, 281.223 adeptos assistiram aos jogos, estabelecendo um recorde diário histórico da prova. O impacto económico total estimado nos três países anfitriões ronda os 23 mil milhões de euros, um valor que ilustra a dimensão colossal do evento.
As receitas de bilheteira deverão superar os 2,6 mil milhões de euros, enquanto os contratos de patrocínio – incluindo renovações com McDonald’s e Unilever – apontam para 2,1 mil milhões. Estes valores consolidam o ciclo comercial mais rentável de sempre para a organização liderada por Gianni Infantino.

Bilhetes a preço de ouro
Pela primeira vez num Mundial, a FIFA aplicou um sistema de preços dinâmicos, semelhante ao utilizado na aviação e hotelaria. Os valores flutuam conforme a procura, e os bilhetes mais acessíveis começaram nos 575 dólares (cerca de 500 euros). Mas foi no mercado secundário que os números atingiram proporções surreais: lugares para a final dominical foram listados a partir de 10 mil euros, com a plataforma oficial da FIFA a apresentar opções a 28 mil euros. Algumas propostas na revenda chegaram perto dos 2 milhões de euros.
A retenção de passes nas plataformas oficiais funcionou como gatilho para a inflação artificial dos preços, criando uma bolha especulativa que afastou milhões de potenciais adeptos.
Portugal brilhou nas audiências
A seleção portuguesa dominou as audiências televisivas do torneio, acumulando 15,8 milhões de espectadores durante a fase em que participou. Os números confirmam o peso do futebol português no panorama internacional e o poder de mobilização da equipa das quinas.

Críticas de todos os lados
Apesar dos recordes, o Mundial 2026 enfrentou uma avalanche de críticas. As restrições impostas pela política de imigração dos Estados Unidos bloquearam o acesso de fãs de várias geografias, segundo denúncias de organizações não-governamentais. As exigências para atribuição de vistos limitaram o público a cidadãos com passaportes europeus ou norte-americanos e capacidade de consumo elevada, criando uma demografia homogénea de alto poder de compra.
A Amnesty International acusou a estrutura de preços dinâmicos e as comissões do mercado de revenda de afastarem adeptos com menos recursos, contrastando frontalmente com o discurso oficial da FIFA de um Mundial “seguro, acolhedor e inclusivo”.
Transportes e fraudes
Os problemas não se ficaram pelos bilhetes. A viagem de cerca de 15 minutos entre Manhattan e o MetLife Stadium, em Nova Jérsia, custou 150 dólares por trajeto de ida e volta – um valor várias vezes superior ao praticado em eventos da liga de futebol americano.
Organizações de defesa do consumidor nos Estados Unidos reportaram casos de fraude envolvendo “bilhetes fantasma”: entradas compradas no mercado de revenda que nunca existiram, com adeptos a descobrirem o engano apenas no dia do jogo. Associações do setor do entretenimento pediram ao Congresso legislação específica para combater estas práticas.

Protestos e interferência política
Em Los Angeles, ativistas organizaram protestos contra patrocinadores do Mundial, acusando a FIFA e as marcas parceiras de utilizarem o futebol para “lavagem de imagem”, dado o histórico ambiental e de direitos humanos de alguns parceiros comerciais.
Mas a polémica maior veio da Casa Branca: o presidente Donald Trump telefonou a Gianni Infantino para exigir a anulação do cartão vermelho mostrado a Folarin Balogun, avançado da seleção norte-americana. A FIFA suspendeu o castigo, viabilizando a presença do atleta – um precedente preocupante sobre a independência desportiva da organização.
O preço do espetáculo
O Mundial 2026 provou que a FIFA domina a arte de transformar paixão em receita. Mas os milhares de milhões arrecadados deixam um sabor amargo: um evento que deveria celebrar o desporto mais popular do mundo acabou inacessível para milhões dos seus verdadeiros protagonistas, os adeptos que enchem estádios e alimentam a máquina todos os fins de semana. Resta saber se as próximas edições aprenderão alguma lição – ou se os números continuarão a falar mais alto que as pessoas.
Via: ECO



