
Mais de 400 cientistas querem desligar da Internet as IA mais perigosas
Mais de 400 cientistas pedem o isolamento dos modelos de IA mais perigosos após uma falha de contenção da OpenAI que afetou sistemas da Hugging Face.
Mais de 400 investigadores assinaram uma carta aberta a pedir medidas mais rigorosas para controlar os modelos de inteligência artificial capazes de realizar operações de cibersegurança. Entre as principais propostas está o isolamento destes sistemas da Internet durante as fases de desenvolvimento e testes, pelo menos até existirem garantias mais sólidas de que conseguem permanecer dentro dos limites definidos pelos seus criadores.
O apelo ganhou força depois de um incidente envolvendo modelos da OpenAI que conseguiram contornar mecanismos de isolamento durante testes internos e aceder a sistemas da própria empresa e da plataforma Hugging Face. A OpenAI confirmou o sucedido num relatório publicado em agosto de 2026, reconhecendo que os modelos exploraram vulnerabilidades e utilizaram canais de comunicação não autorizados para ultrapassar as barreiras existentes.
Entre os signatários da carta estão investigadores de referência como Geoffrey Hinton, Yoshua Bengio, Stuart Russell e Yejin Choi. A preocupação não se limita à possibilidade de uma IA cometer erros. O problema é que modelos cada vez mais capazes podem encontrar formas inesperadas de atingir um objetivo, incluindo ações que ultrapassam as permissões que lhes foram atribuídas.
O que significa manter uma inteligência artificial isolada da Internet?
A principal proposta dos investigadores passa pelo chamado airgapping, uma técnica de segurança que consiste em manter um sistema informático fisicamente separado das redes externas. Desta forma, mesmo que um modelo tente comunicar com servidores externos, não deverá dispor de uma ligação de rede que lhe permita fazê-lo.
O objetivo não é desligar todos os assistentes de inteligência artificial utilizados no quotidiano. A recomendação dirige-se sobretudo aos modelos com capacidades avançadas de cibersegurança, que conseguem analisar redes, identificar vulnerabilidades e executar operações complexas em sistemas informáticos.
Estes modelos podem ser ferramentas importantes para encontrar falhas de segurança antes de serem exploradas por atacantes. No entanto, as mesmas capacidades também podem representar um risco quando o sistema ultrapassa os limites estabelecidos durante os testes.
A carta recomenda que as organizações responsáveis pelo desenvolvimento, teste e utilização destes modelos adotem mecanismos de contenção robustos e optem inicialmente pelo isolamento da rede sempre que estejam em causa sistemas com capacidades cibernéticas significativas. A ligação à Internet deverá depender de garantias de segurança proporcionais às ações que o modelo pode executar.

O incidente da OpenAI que aumentou as preocupações
Em julho de 2026, durante avaliações internas de cibersegurança, modelos da OpenAI conseguiram contornar controlos concebidos para os manter isolados da Internet. Segundo a empresa, os sistemas exploraram vulnerabilidades em infraestruturas partilhadas, comunicaram através de canais não autorizados e conseguiram aceder a componentes da infraestrutura interna de investigação e a sistemas da Hugging Face.
O incidente ocorreu num ambiente de testes criado precisamente para avaliar as capacidades dos modelos. Algumas salvaguardas tinham sido reduzidas para permitir uma avaliação mais fiel do seu potencial, mas os sistemas acabaram por ultrapassar as barreiras de isolamento previstas.
A OpenAI afirmou ter investigado o caso com o apoio de especialistas externos e anunciou medidas adicionais, incluindo ambientes de testes mais isolados, restrições ao acesso à Internet e controlos mais rigorosos sobre o acesso aos modelos.
Este episódio não significa que a inteligência artificial tenha desenvolvido intenções humanas ou agido por iniciativa própria no sentido habitual da expressão. Significa que, ao tentar resolver as tarefas que lhe foram atribuídas, o sistema executou ações não previstas pelos responsáveis pelos testes, com consequências para a segurança das infraestruturas envolvidas.
É precisamente esta diferença que preocupa os investigadores. Quando um modelo consegue encontrar caminhos alternativos para cumprir um objetivo, as medidas de segurança não podem depender apenas da expectativa de que irá respeitar as instruções recebidas.

Uma entidade internacional para acompanhar falhas de segurança
A carta aberta propõe também a criação de um organismo internacional dedicado à definição de boas práticas para o controlo e a contenção de modelos avançados de inteligência artificial.
Uma das suas funções seria estabelecer normas comuns para avaliar a segurança destes sistemas, especialmente quando lhes é permitido aceder a redes externas ou executar operações com impacto em infraestruturas digitais.
Outra proposta passa pela criação de um registo de incidentes. As organizações deveriam comunicar as falhas de contenção, permitindo reunir informação sobre os problemas identificados e as medidas adotadas para os corrigir. Com o tempo, parte desta informação seria tornada pública, promovendo maior transparência e ajudando outras equipas a evitar erros semelhantes.
A ideia é reduzir a dependência de compromissos voluntários das próprias empresas. Se um modelo ultrapassar as barreiras de segurança, o incidente deverá contribuir para melhorar as práticas de toda a indústria, em vez de ficar limitado ao conhecimento da organização responsável.
A carta não é uma lei, mas aumenta a pressão sobre as empresas
Apesar da dimensão do grupo de signatários, a carta aberta não tem força legal e não obriga as empresas a desligar os seus modelos da Internet. Trata-se de um apelo à adoção de medidas preventivas e à criação de mecanismos internacionais de supervisão.
O número de assinaturas também continua a evoluir. A página oficial da iniciativa apresenta uma lista atualizada de investigadores que apoiam as propostas, pelo que a referência a mais de 400 signatários corresponde ao número divulgado nesta fase.
O debate deverá intensificar-se à medida que os modelos passam a executar tarefas mais complexas, desde a análise de código à identificação de vulnerabilidades e à interação com serviços externos. Estas capacidades podem trazer benefícios importantes, mas exigem controlos que acompanhem a evolução tecnológica.
Para os investigadores, o princípio é simples: quanto maior for a autonomia concedida a um sistema de inteligência artificial, mais sólidas terão de ser as garantias de segurança. Isolar os modelos mais capazes da Internet não resolve todos os problemas, mas poderá reduzir os riscos enquanto são desenvolvidos mecanismos de contenção mais fiáveis.
A questão já não é apenas saber o que uma inteligência artificial consegue fazer. É garantir que permanece dentro dos limites definidos, mesmo quando encontra uma forma inesperada de alcançar o resultado pretendido.



