A Apple enfrenta pressão direta da administração norte-americana para abandonar planos de recorrer a fabricantes chineses de chips de memória. Howard Lutnick, secretário do Comércio dos EUA, deixou claro numa entrevista ao Wall Street Journal que o governo Trump não apoia a ideia de a gigante de Cupertino comprar chips de memória chineses mesmo numa altura em que a escassez global de componentes aperta.
O dilema da Apple e a escassez de memória
A fabricante do iPhone procura há meses autorização para adquirir chips a duas empresas chinesas: a CXMT e a YMTC. Ambas estão na mira das autoridades norte-americanas a YMTC consta da lista de entidades restritas do Departamento do Comércio, e tanto ela como a CXMT foram classificadas pelo Pentágono como empresas ligadas ao exército chinês.
Tim Cook já tinha defendido publicamente que os EUA deveriam “olhar para toda a oferta disponível”, e na última conferência de resultados da empresa reiterou que a Apple está a “avaliar todas as opções”. Há também relatos de que a empresa já testou chips da CXMT e explorou negociações com a YMTC.

“Não é bom para grandes empresas americanas”
Lutnick foi direto ao ponto. Numa visita à nova instalação de manufatura avançada da Apple em Houston, no Texas onde esteve acompanhado por Tim Cook e pelo senador Ted Cruz , o secretário afirmou que “tem de haver outras soluções para o problema da memória, mas não é bom para grandes empresas americanas usarem memória chinesa”.
Questionado pelo WSJ se tinha transmitido esta oposição diretamente à Apple, Lutnick confirmou que o fez “de forma clara”. A visita aconteceu apenas um dia após a inauguração do centro, que faz parte do investimento de 600 mil milhões de dólares (cerca de 548 mil milhões de euros) da Apple em manufatura nos Estados Unidos.
A questão da personalização de componentes
Um ponto curioso levantado por Sabih Khan, diretor de operações da Apple, ao Wall Street Journal: ao contrário de muitos componentes do iPhone que são altamente personalizados, os chips de memória não exigem “muita personalização”. Isto significa que a Apple poderia simplesmente usar chips standard disponíveis no mercado.
Mas se a empresa decidisse mesmo precisar de componentes personalizados, teria de partilhar informações técnicas sobre os seus produtos com a CXMT ou YMTC algo que as atuais regras norte-americanas de controlo de exportações restringem e que exigiria licença especial do Departamento do Comércio.
Pressão bipartidária e implicações para a Europa
A oposição não vem apenas da administração Trump. Um grupo bipartidário de senadores norte-americanos já tinha pedido à Apple que abandonasse qualquer plano de adquirir memória às empresas chinesas, citando preocupações de segurança nacional e a desvantagem competitiva que empresas norte-americanas enfrentam ao competir com rivais subsidiados pelo Estado chinês.
Para consumidores europeus, esta disputa pode ter consequências práticas. Se a Apple não conseguir diversificar as suas fontes de memória, a escassez global pode traduzir-se em preços mais elevados ou menor disponibilidade de iPhones e outros dispositivos. Por outro lado, a pressão para aumentar a produção nos EUA e noutros países aliados pode, a longo prazo, estabilizar as cadeias de fornecimento.
O que vem a seguir?
Apesar do investimento multimilionário em manufatura norte-americana visto por muitos como uma tentativa de manter boas relações com a administração Trump e garantir acordos favoráveis , está cada vez mais evidente que um acordo para adquirir chips de memória chineses não fará parte do pacote. A Apple terá de encontrar alternativas noutros mercados, possivelmente na Coreia do Sul ou em Taiwan, ou acelerar parcerias com fabricantes norte-americanos.
O braço de ferro entre necessidades comerciais e pressões geopolíticas continua, e a decisão final da Apple poderá definir o tom para outras empresas tecnológicas ocidentais que enfrentam dilemas semelhantes.
Via: 9to5Mac




