Apple e Micron em confronto perante Trump por chips chineses

A Apple procura autorização para usar memória de fabricantes chineses em produtos vendidos fora dos EUA, mas a Micron trava o plano junto da administração Trump. O impasse coloca em risco o futuro da produção americana de semicondutores.

A escassez de memória RAM e NAND que levou a Apple a aumentar preços no mês passado está a transformar-se num campo de batalha político entre Cupertino e a Micron. Tim Cook quer luz verde para comprar chips de fornecedores chineses sancionados, mas o único fabricante americano de peso no setor travou o plano junto da Casa Branca.

O plano da Apple vai além da China

Cook tem pressionado a administração Trump para aprovar a compra de chips de memória à ChangXin Memory Technologies (CXMT) e à Yangtze Memory Technologies (YMTC) duas empresas designadas pelo Pentágono como ligadas ao exército chinês. A YMTC está ainda na Entity List do Departamento de Comércio, o que torna qualquer negócio politicamente explosivo.

O Wall Street Journal avança que a Apple não quer usar estes componentes apenas no mercado chinês. A proposta apresentada por Cook ao próprio Trump, ao secretário do Comércio Howard Lutnick e ao secretário do Tesouro Scott Bessent passa por integrar memória chinesa em produtos vendidos fora dos Estados Unidos uma estratégia que a empresa já começou a testar internamente com módulos DRAM da CXMT, segundo noticiou o Financial Times.

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Micron alerta para risco de colapso industrial

Do outro lado da mesa, a Micron e o seu CEO Sanjay Mehrotra têm advertido Lutnick e outros responsáveis de que autorizar fabricantes chineses fortemente subsidiados pelo Estado a vender para empresas tecnológicas americanas independentemente da região de venda final pode destruir a indústria doméstica. O paralelo traçado é com o que aconteceu ao aço e à manufactura nos EUA, sectores dizimados pela concorrência chinesa.

A Micron garante que consegue aliviar a escassez se acelerar a construção de fábricas em solo americano e aumentar o investimento interno. Curiosamente, há poucas semanas um executivo da empresa já tinha atirado farpas indiretas à Apple, apontando que “um par de clientes” tinha sido “muito agressivo com os preços” durante a descida do mercado em 2023, desencorajando investimento em capacidade produtiva e alimentando a crise de oferta atual.

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Trump entre dois objetivos contraditórios

O impasse coloca a Casa Branca numa posição desconfortável. Trump terá de escolher entre baixar preços para os consumidores americanos o argumento da Apple ou proteger a produção doméstica de semicondutores e reduzir a dependência externa, a bandeira da Micron.

A Apple não tem poupado esforços para conquistar capital político. Nos últimos dois anos, a empresa tem martelado o seu American Manufacturing Program de 600 mil milhões de dólares (cerca de 550 mil milhões de euros), acordos com a Intel e, mais recentemente, um compromisso de 30 mil milhões de dólares (aproximadamente 27,5 mil milhões de euros) com a Broadcom. Tudo visto como tentativas de construir boa vontade junto da administração antes de fazer pedidos controversos como este.

Enquanto isso, a Micron tem surfado a valorização brutal do mercado de memória: as ações subiram 191% este ano e impressionantes 727% nos últimos 12 meses. Ainda assim, a volatilidade recente cortou 23% do pico histórico atingido no final de junho, com uma queda de quase 7% só no último dia de negociação.

Porta-voz da Casa Branca mantém suspense

Uma declaração oficial da Casa Branca ao Journal não esclareceu qual será a decisão final, limitando-se a afirmar que a administração irá perseguir “investimentos e alívio económico para o povo americano, salvaguardando ao mesmo tempo a segurança nacional”.

A pergunta que fica é se Trump vai autorizar a Apple a contornar as restrições ou se a pressão da Micron e o receio de ver a última grande fabricante americana de memória a perder terreno para rivais chineses vai pesar mais. Para a Europa, que acompanha de perto as tensões tecnológicas sino-americanas, a decisão pode definir precedentes sobre até onde as empresas ocidentais podem ir na cadeia de abastecimento chinesa sem comprometer a segurança estratégica.

Via: 9to5Mac

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Bruno Xarope
Bruno Xarope

Bruno Xarope escreve sobre tecnologia, smartphones, mobilidade elétrica e inovação no CtrlShift.pt. Acompanha diariamente as novidades do setor e testa regularmente novos equipamentos, partilhando análises, opiniões e primeiras impressões.

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