Um curso superior de Gaming. Estão a brincar, certo?

Óbidos vai ter um curso superior de Gaming e Esports. Faz sentido num país com outras prioridades? A minha opinião honesta — com os riscos todos incluídos.

Gaming? Foi o que pensei quando vi o post do município de Óbidos. E aposto que foi o que pensaste também.

Óbidos vai ter um TeSP em Jogos Eletrónicos e Competições Desportivas Digitais. Candidaturas abrem já na próxima semana, o curso arranca em setembro, e a parceria envolve o Instituto Politécnico de Santarém, o Município de Óbidos e o Parque Tecnológico local. Tudo muito oficial, tudo muito sério.

Mas a pergunta fica no ar: num país onde faltam enfermeiros, onde os engenheiros emigram e onde o SNS está a rebentar pelas costuras, é mesmo isto que precisamos? Um curso de gaming?

A resposta honesta é: provavelmente não é o que mais falta. Mas também não é tão absurdo quanto parece.

Antes de mais, o que é isto de facto

Um TeSP não é uma licenciatura. São dois anos, muito práticos, muito orientados para sair dali e trabalhar. E este curso não vai formar jogadores profissionais — isso seria ingénuo. Vai formar pessoas para trabalhar à volta do sector: organizar eventos, gerir comunidades, produzir conteúdo, fazer marketing desportivo digital.

É uma indústria real. Enorme, até. O problema é que em Portugal ainda é pequena, e as saídas profissionais concretas cá dentro são limitadas. Isso não se pode ignorar.

Gaming

O argumento do “havia cursos mais úteis” não me convence

Portugal já tem cursos em enfermagem e engenharia. Muitos. O problema nunca foi falta de oferta — é falta de condições para as pessoas ficarem cá a exercer essas profissões. Salários a bater no chão, progressão que não existe, e o aeroporto ali à mão para quem quer ganhar o dobro em Londres ou Amesterdão.

Abrir um TeSP em Gaming em Óbidos não fecha nenhuma vaga em medicina. O sistema não funciona assim.

Onde o meu ceticismo fica

A comunicação à volta disto preocupa-me. Se o marketing for honesto — “vais aprender a gerir e produzir dentro desta indústria” — pode correr bem. Se for vendido como uma porta para a carreira de jogador profissional, vai fazer muita gente perder dois anos da vida.

E há outra coisa: o mercado nacional de esports ainda não justifica uma vaga de emprego por cada diplomado que sair daqui. Isso é um risco real que os jovens precisam de perceber antes de se candidatarem.

No fim

Mas o problema de Portugal não é ter um curso de gaming. É continuar a formar talento para outros países aproveitarem.

Isso sim, é o verdadeiro desperdício.

E se calhar é por isso que um curso assim em Óbidos faz algum sentido — não porque o mercado nacional já esteja pronto, mas porque alguém tem de começar a construí-lo. Os profissionais não aparecem do nada quando a indústria finalmente crescer. Precisam de ser formados antes, para estarem lá quando for preciso.

A questão é se o timing está certo. E a resposta honesta é: talvez não. Mas timing perfeito em Portugal raramente existe. Quem esperou pelas condições ideais para apostar em tecnologia nos anos 90, ou em startups nos anos 2010, ficou para trás.

Óbidos já mostrou antes que sabe arriscar. O Parque Tecnológico local não nasceu porque havia procura garantida — nasceu para criar procura. Esta aposta pode seguir a mesma lógica.

Pode correr bem. Pode correr mal. Mas pelo menos alguém está a tentar construir alguma coisa em vez de se queixar que o país não evolui.

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Bruno Xarope
Bruno Xarope

Bruno Xarope escreve sobre tecnologia, smartphones, mobilidade elétrica e inovação no CtrlShift.pt. Acompanha diariamente as novidades do setor e testa regularmente novos equipamentos, partilhando análises, opiniões e primeiras impressões.

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