Ensaio Abarth 500e: quando um escorpião troca a gasolina pela eletricidade

O Abarth 500e representa uma nova era para o escorpião italiano. Mas será que um Abarth elétrico consegue manter a diversão e a personalidade que sempre conquistaram os petrolheads?

Há carros que se conduzem, há outros que se vivem e depois há aqueles que, mesmo antes de ligarmos qualquer coisa, já nos estão a provocar. O Abarth 500 sempre pertenceu a esta última categoria, com aquela mistura muito própria de irreverência italiana, tamanho reduzido e uma capacidade quase absurda de transformar qualquer deslocação banal numa desculpa para procurar uma estrada com curvas.

O 500 Abarth nunca precisou de ser o mais rápido para ser especial. Bastava-lhe ser leve, barulhento, nervoso e suficientemente maluco para nos convencer de que qualquer saída de casa podia acabar numa pequena aventura. Por isso, quando a Abarth decidiu transformar o 500 num carro elétrico, a reação instintiva de qualquer petrolhead minimamente emocional só podia ser uma: mas porquê? Um Abarth sem motor de combustão, sem o 1.4 T-Jet a berrar atrás de nós, sem mudanças, sem rotações e sem aquele cheiro a gasolina parecia, à partida, uma heresia.

E confesso que foi com essa ideia na cabeça que me sentei ao volante do Abarth 500e.

Abarth 500e

O problema começa logo na palavra Abarth

O Abarth 500e obriga-nos a separar duas coisas que durante décadas estiveram quase sempre coladas: desempenho e emoção. Debaixo daquela carroçaria compacta está um motor elétrico com cerca de 155 cv e 235 Nm de binário, números que, isoladamente, não impressionam num mundo onde até SUVs familiares elétricos já ultrapassam facilmente os 300 ou 400 cv. Mas o Abarth nunca foi sobre números, e isso percebe-se logo nos primeiros metros.

A resposta ao acelerador é imediata, sem hesitações, sem necessidade de esperar por rotações ou por qualquer tipo de construção mecânica. Carregamos e o carro dispara. O 0-100 km/h ronda os sete segundos, um valor que não assusta ninguém no papel, mas que dentro de um carro tão pequeno e tão próximo do chão acaba por parecer mais intenso do que realmente é. E depois há a direção, que continua a ser um dos pontos onde o 500e mais facilmente nos convence de que ainda há aqui algo especial.

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Pequeno por fora, enorme nas sensações

O grande trunfo do 500e continua a ser o seu tamanho. Numa era em que tudo parece crescer a cada geração, entre SUVs, crossovers e variações infinitas do mesmo conceito, entrar num Abarth 500e é quase um regresso à simplicidade. Sentamo-nos num carro pequeno, muito pequeno, com o capot ali mesmo à nossa frente e as rodas colocadas nos quatro cantos da carroçaria, o que cria imediatamente aquela sensação de que este não é um carro feito para longas autoestradas, mas sim para estradas secundárias, rotundas e curvas encadeadas.

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A direção é rápida e o carro muda de direção com uma facilidade que continua a ser uma das melhores características da família 500. No entanto, há uma diferença importante em relação aos antigos Abarth a combustão: o peso. A bateria torna este 500e mais pesado, e isso sente-se. Não o torna lento nem desinteressante, mas retira-lhe aquela leveza quase irresponsável que fazia dos antigos modelos algo tão viciante. Em troca, ganhamos mais estabilidade e uma sensação de maior solidez, mas perdemos um pouco daquela sensação de brinquedo desgovernado que era tão parte da experiência original.

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E depois carregamos no botão…

O Abarth 500e oferece diferentes modos de condução, e é aqui que percebemos que a marca tentou, dentro das limitações da eletrificação, preservar a sua identidade. No modo Turismo, o carro torna-se mais suave, mais civilizado e perfeitamente utilizável no dia a dia, especialmente em cidade. Mas ninguém compra um Abarth para ser civilizado.

É por isso que existe o modo Scorpion Track, e o nome diz praticamente tudo. A resposta ao acelerador torna-se mais agressiva, a entrega de potência mais imediata e o carro passa a transmitir aquela sensação constante de prontidão, como se estivesse sempre à espera da próxima provocação. É neste modo que o 500e deixa de ser apenas um Fiat elétrico mais potente e passa a ter, de facto, personalidade própria.

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O interior continua a ser parte do espetáculo

Por dentro, o 500e mantém aquela mistura muito italiana entre estilo e simplicidade. Não é um interior perfeito, há materiais que podiam ser melhores e algumas soluções denunciam a sua origem mais acessível, mas há personalidade em quase todos os detalhes. Os bancos, o volante, os apontamentos Abarth e a posição de condução fazem-nos sentir que estamos num carro diferente do 500 convencional.

E isso é essencial. Um Abarth não pode ser apenas potência. Tem de parecer especial, tem de ter identidade e tem de nos fazer olhar para trás quando o estacionamos. O 500e consegue isso com relativa facilidade, e talvez seja uma das suas maiores virtudes.

A autonomia é a parte menos divertida da equação

Com uma bateria de cerca de 42 kWh, o Abarth 500e não foi pensado para longas viagens. E ainda bem. Este não é um GT elétrico nem um carro para atravessar países a alta velocidade. É um pequeno desportivo urbano, feito para cidade e estradas secundárias, onde o seu tamanho, resposta imediata e agilidade fazem todo o sentido.

A autonomia, por isso, deve ser vista dentro desse contexto. Não é brilhante, mas também não precisa de ser. E quando chega a altura de carregar, a capacidade de carregamento rápido ajuda a tornar o processo relativamente eficiente. Ainda assim, há uma diferença emocional importante em relação aos antigos Abarth: antes, uma paragem rápida numa bomba resolvia tudo; agora, a brincadeira depende da bateria.

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Afinal, isto é mesmo um Abarth?

Esta é a pergunta que fica no ar durante todo o ensaio. E a resposta não é simples. Se definirmos Abarth como um pequeno carro italiano com motor de combustão, escape ruidoso e comportamento quase irresponsável, então não, o 500e não é um Abarth. Mas se o entendermos como uma filosofia pegar num carro pequeno, torná-lo mais rápido, mais agressivo e, acima de tudo, divertido então sim, é um Abarth.

É um Abarth de uma nova era, e talvez seja isso que mais custa aceitar. Não porque seja elétrico, mas porque, de alguma forma, acabamos por gostar dele.

Eu queria não gostar. Queria sair deste carro com a certeza de que tudo estava errado, que era pesado, artificial, sem alma e sem aquele carácter bruto dos antigos. E, em parte, continuo a pensar isso. Mas depois há aquela estrada, aquela sequência de curvas, aquela saída de rotunda em que o binário aparece instantaneamente e aquele sorriso que surge sem pedir autorização.

E é aí que tudo se complica.

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O futuro pode não ser tão mau como pensamos

O Abarth 500e não substitui o 695 Competizione. Nem deve. São carros diferentes, com filosofias diferentes. O 695 era irracional, barulhento e mecânico. O 500e é mais silencioso, mais tecnológico e mais racional. Mas ambos partilham algo essencial: a capacidade de serem divertidos.

E talvez seja isso que realmente importa. O futuro automóvel pode ser elétrico, mais pesado e mais silencioso, mas isso não significa que tenha de ser aborrecido. O 500e prova isso de forma surpreendente.

Não é perfeito, não tenta ser e ainda tem várias concessões. Mas continua a ter aquele ingrediente fundamental que define a marca: faz-nos querer conduzir.

E no fim do dia, um Abarth nunca foi sobre ser o mais rápido. Foi sempre sobre ser o carro que nos fazia procurar a próxima estrada.

Bruno Xarope
Bruno Xarope

Bruno Xarope escreve sobre tecnologia, smartphones, mobilidade elétrica e inovação no CtrlShift.pt. Acompanha diariamente as novidades do setor e testa regularmente novos equipamentos, partilhando análises, opiniões e primeiras impressões.

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