
Huawei continua a crescer apesar do bloqueio dos EUA
A Huawei continua a crescer nos últimos seis anos, apesar das sanções norte-americanas e da escassez de componentes. O chairman da divisão de consumo revelou como a empresa apostou na autossuficiência tecnológica.
A Huawei continua a crescer apesar do bloqueio dos EUA, conseguiu contrariar muitas das previsões feitas quando os Estados Unidos começaram a impor restrições à empresa em 2019. Seis anos depois, a fabricante chinesa não só continua presente no mercado de smartphones como conseguiu reconstruir uma parte significativa da sua cadeia tecnológica, reduzindo a dependência de fornecedores e tecnologias norte-americanas.
Richard Yu, presidente da divisão de consumo da Huawei, explicou recentemente alguns dos bastidores desta transformação e reconheceu que a decisão de continuar a investir e desenvolver tecnologia própria aconteceu num dos períodos mais difíceis da história recente da empresa.
As sanções limitaram o acesso da Huawei a componentes e tecnologias fundamentais, incluindo ferramentas avançadas para o fabrico de semicondutores. Mais tarde, a situação ficou ainda mais complicada com a pressão sobre a cadeia global de fornecimento de memória, impulsionada pelo crescimento explosivo da inteligência artificial.
Huawei teve de reconstruir a sua cadeia tecnológica
Quando as primeiras restrições norte-americanas entraram em vigor, a Huawei perdeu acesso a várias tecnologias fundamentais para manter o ritmo de desenvolvimento dos seus smartphones. A empresa viu-se obrigada a procurar alternativas e a aumentar rapidamente a utilização de fornecedores chineses.
O problema não era apenas encontrar componentes equivalentes. Em muitos casos, era necessário desenvolver tecnologias praticamente a partir do zero, criando uma cadeia de fornecimento capaz de substituir soluções que anteriormente vinham de empresas estrangeiras.
A situação tornou-se ainda mais complicada com a crescente procura por semicondutores e memória associada aos sistemas de inteligência artificial. O aumento da procura fez subir os custos e colocou pressão sobre a disponibilidade de componentes em todo o mercado.
Para uma empresa que já enfrentava restrições comerciais, esta combinação de fatores poderia ter representado um golpe particularmente difícil.

O regresso aos chips 5G foi um momento decisivo
Um dos momentos mais importantes aconteceu em 2023, quando a Huawei voltou a apresentar smartphones com conectividade 5G e processadores desenvolvidos dentro do seu ecossistema tecnológico.
O regresso foi particularmente relevante porque demonstrou que a empresa tinha conseguido reconstruir parte da capacidade necessária para desenvolver equipamentos avançados apesar das restrições impostas pelos Estados Unidos.
A Huawei começou entretanto a apostar cada vez mais em soluções próprias, não apenas ao nível dos processadores, mas também em componentes, software e diferentes áreas da cadeia tecnológica.
O HarmonyOS tornou-se uma das faces mais visíveis desta estratégia. Depois de perder o acesso aos serviços Google nos seus smartphones, a Huawei desenvolveu o seu próprio sistema operativo e começou a construir um ecossistema independente.
HarmonyOS é apenas uma parte da estratégia
A independência tecnológica da Huawei não depende apenas do sistema operativo. A empresa tem vindo a desenvolver uma cadeia cada vez mais integrada, envolvendo processadores, software, componentes e fornecedores chineses.
Richard Yu defende que a combinação entre os chips desenvolvidos pela Huawei, o HarmonyOS e uma cadeia de fornecimento doméstica permitiu reduzir drasticamente a dependência de tecnologias norte-americanas.
É importante, contudo, distinguir independência tecnológica de autossuficiência absoluta. O desenvolvimento de semicondutores continua a depender de uma cadeia global extremamente complexa, com equipamentos, materiais e conhecimento provenientes de diferentes regiões.
Ainda assim, a capacidade de reconstruir alternativas num período relativamente curto demonstra a dimensão do esforço realizado pela Huawei.

Seis anos de investimento para recuperar terreno
Esta transformação não aconteceu rapidamente. Foram necessários anos de investimento em investigação e desenvolvimento, criação de parcerias com empresas chinesas e adaptação de produtos e processos.
A Huawei teve também de aceitar que algumas tecnologias desenvolvidas internamente poderiam inicialmente não atingir o mesmo nível das soluções disponíveis no mercado global. A estratégia passou por continuar a investir até conseguir reduzir progressivamente essa diferença.
O resultado é uma empresa bastante diferente daquela que existia antes das sanções. A Huawei deixou de depender exclusivamente das cadeias internacionais que utilizava para fabricar os seus equipamentos e passou a controlar uma parte muito maior da tecnologia presente nos seus produtos.
O caso Huawei interessa também à Europa
A transformação da Huawei representa um caso relevante para a indústria tecnológica europeia. A pandemia e as tensões comerciais dos últimos anos demonstraram os riscos associados à concentração da produção e à dependência de determinados fornecedores ou regiões.
A União Europeia tem procurado precisamente reduzir algumas dessas dependências e aumentar a capacidade de produção de componentes estratégicos dentro do próprio território.
O caso Huawei mostra, no entanto, que esse processo exige tempo, capital e uma enorme capacidade de investimento. Não basta decidir produzir tecnologia localmente. É necessário criar empresas, fornecedores, conhecimento técnico e infraestruturas capazes de suportar toda a cadeia.
É também por isso que a experiência da Huawei dificilmente pode ser replicada por qualquer fabricante. A dimensão da empresa, o enorme mercado chinês e os recursos investidos em investigação e desenvolvimento foram fatores fundamentais para permitir esta transformação.
Seis anos depois do início das sanções, a Huawei continua longe de ter recuperado toda a posição internacional que tinha antes de 2019. No entanto, conseguiu algo que parecia bastante improvável naquele momento: transformar uma situação de dependência tecnológica numa oportunidade para construir um ecossistema muito mais independente.
O verdadeiro teste será perceber se esta estratégia permitirá à empresa continuar competitiva fora da China. Mas uma coisa já ficou demonstrada: as sanções não eliminaram a Huawei do mercado tecnológico. Obrigaram-na a mudar profundamente a forma como desenvolve e fabrica os seus produtos.



