Instagram lança etiqueta “AI Creator” opcional, e é tão inútil quanto parece

O Instagram está a testar uma etiqueta "AI Creator" para conteúdo gerado por IA. O problema: é opcional. E isso torna tudo completamente inútil.

A Meta está a testar uma nova funcionalidade no Instagram: uma etiqueta “AI Creator” para contas que publicam frequentemente conteúdo gerado por inteligência artificial. A etiqueta aparece no perfil e junto ao conteúdo publicado.

O problema? É opt-in. Ou seja, o criador tem de escolher activá-la.

Como funciona

Quem optar pela etiqueta passa a ter o selo “AI Creator” visível no seu perfil e nas suas publicações. O Instagram garante que activar esta etiqueta não afecta a distribuição do conteúdo na plataforma — o alcance e o feed algorítmico mantêm-se inalterados.

A funcionalidade ainda está em fase de testes e não está disponível para todos os utilizadores. A plataforma confirmou que vai expandir o acesso “nas próximas semanas”.

O problema óbvio

Para perceber porque é que isto não vai funcionar, basta fazer uma pergunta simples: quem tem interesse em activar esta etiqueta?

As contas que publicam conteúdo gerado por IA em massa — os chamados AI slop farms, páginas criadas exclusivamente para gerar engagement com imagens e vídeos sintéticos — não têm absolutamente nenhum incentivo para se identificar como tal. O modelo de negócio destes criadores depende precisamente de o utilizador não saber que o conteúdo é gerado por IA. Uma etiqueta opcional que expõe isso é a última coisa que vão querer.

Os únicos criadores que vão adoptar esta etiqueta são aqueles que já são transparentes sobre o uso de IA — artistas digitais, ilustradores, criadores que usam ferramentas de IA como parte do seu processo criativo e que não têm nada a esconder. Mas esses nunca foram o problema.

O que o Instagram devia ter feito

A alternativa óbvia é uma etiqueta obrigatória — aplicada automaticamente com base na detecção de conteúdo gerado por IA, ou exigida pela plataforma sempre que o criador use ferramentas de geração de imagem ou vídeo. É o modelo que o TikTok e o YouTube já implementaram, com graus de eficácia variável mas com uma lógica muito mais sólida.

O Instagram já exige que os utilizadores identifiquem conteúdo pago e publicidade. Não há razão conceptual para que o conteúdo gerado por IA seja tratado de forma diferente — especialmente numa altura em que a desinformação visual é um problema real e crescente.

Transparência ou aparência de transparência

O Instagram diz que esta funcionalidade é sobre transparência. Mas transparência que depende da boa vontade de quem não tem interesse em ser transparente não é transparência — é cosmética.

A Meta sabe isto. A decisão de tornar a etiqueta opcional em vez de obrigatória é uma escolha deliberada que protege o engagement da plataforma em detrimento da experiência do utilizador. Conteúdo de IA, seja bom ou mau, gera interacções. E interacções são o que a Meta vende aos anunciantes.

No final, esta etiqueta vai aparecer nos perfis de quem menos precisa dela. E vai estar completamente ausente de quem mais devia tê-la.

Bruno Xarope
Bruno Xarope

Bruno Xarope escreve sobre tecnologia, smartphones, mobilidade elétrica e inovação no CtrlShift.pt. Acompanha diariamente as novidades do setor e testa regularmente novos equipamentos, partilhando análises, opiniões e primeiras impressões.

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