
Meta enfrenta uma das maiores crises internas dos últimos 20 anos
O CTO da Meta admitiu que a moral dos funcionários está entre as piores dos últimos 20 anos, após despedimentos e reestruturações ligadas à IA.
A Meta está a atravessar um dos períodos mais complicados da sua história recente. A revelação foi feita pelo próprio diretor de tecnologia da empresa, Andrew Bosworth, que admitiu internamente que o ambiente entre os colaboradores está entre os piores que testemunhou desde que entrou na empresa há quase duas décadas.
A declaração surgiu durante uma sessão interna realizada no início de junho e rapidamente chamou a atenção por partir de uma das figuras mais importantes da organização, alguém que acompanha a evolução da empresa desde os tempos em que ainda se chamava Facebook.
Segundo Bosworth, apenas o período do escândalo Cambridge Analytica foi mais difícil para a empresa do que o momento atual.
A aposta na inteligência artificial está a criar tensão
Grande parte desta situação parece estar relacionada com a profunda transformação que a Meta está a realizar para acelerar o desenvolvimento das suas tecnologias de inteligência artificial.
Nos últimos meses, a empresa tem vindo a reorganizar equipas, recursos e prioridades para colocar a IA no centro da sua estratégia.
No entanto, essa mudança não está a ser bem recebida por todos os colaboradores.
Em maio, a Meta realizou uma ronda de despedimentos que afetou cerca de 10% da sua força de trabalho global. Tendo em conta os quase 78 mil funcionários registados no final de março, isso representa aproximadamente 7.800 pessoas.
Mas os despedimentos foram apenas uma parte da história.

Funcionários foram transferidos contra a vontade
Além das saídas, outros milhares de colaboradores foram deslocados internamente para projetos ligados à inteligência artificial.
Segundo vários relatos, muitos destes profissionais sentiram que não tiveram escolha no processo e acabaram por ser colocados em equipas dedicadas a iniciativas como o Applied AI Engineering e o Agent Transformation Accelerator.
Alguns funcionários chegaram mesmo a descrever a experiência como um “recrutamento forçado”.
A principal crítica parece estar relacionada com a natureza do trabalho desenvolvido nessas equipas. Muitos acreditavam que iriam participar na criação de novos produtos, mas acabaram envolvidos em tarefas relacionadas com preparação, classificação e organização de dados para treino de modelos de IA.
A vigilância no local de trabalho também gerou polémica
A situação agravou-se ainda mais quando surgiram notícias de que a Meta estava a utilizar ferramentas para monitorizar movimentos do rato e padrões de utilização dos computadores dos colaboradores.
O objetivo seria recolher dados para ajudar no desenvolvimento dos seus sistemas de inteligência artificial.
A medida gerou uma forte reação interna.
Mais de mil funcionários assinaram uma petição contra esta prática, levantando preocupações relacionadas com privacidade, transparência e confiança dentro da organização.
Embora a Meta não tenha comentado publicamente a polémica, o episódio contribuiu para aumentar o descontentamento entre várias equipas.

A empresa tenta recuperar a confiança dos colaboradores
Perante este cenário, a liderança da Meta já começou a tomar algumas medidas para tentar melhorar o ambiente interno.
Num memorando enviado aos funcionários, Bosworth afirmou que a empresa pretende voltar a ser “o melhor lugar para que as melhores pessoas façam o melhor trabalho”.
Entre as medidas anunciadas estão a possibilidade de os colaboradores transferidos para equipas de IA se candidatarem a outras funções internas, bem como o reforço dos orçamentos destinados a viagens, eventos e benefícios para os funcionários.
A Meta promete também aumentar a transparência da liderança e investir mais no desenvolvimento profissional dos seus colaboradores.
Mudanças importantes continuam a acontecer
Tudo isto acontece numa altura em que a empresa atravessa várias mudanças estratégicas.
Recentemente, Will Cathcart anunciou a saída da liderança do WhatsApp após mais de sete anos à frente da plataforma. A substituição acontece ao mesmo tempo que a Meta continua a investir fortemente em inteligência artificial aplicada aos seus produtos.
A estratégia de Mark Zuckerberg é cada vez mais clara: integrar agentes de IA em praticamente todos os serviços da empresa e utilizar essas tecnologias para transformar a forma como as equipas trabalham internamente.
O problema é que essa transformação está a ter um impacto significativo na cultura organizacional.
O desafio da Meta vai além da tecnologia
Durante os últimos anos, a Meta conseguiu reinventar-se várias vezes, passando das redes sociais para o metaverso e agora para a inteligência artificial.
Contudo, esta nova fase parece estar a revelar um problema que nenhuma tecnologia consegue resolver sozinha: o fator humano.
A aposta na IA pode ser fundamental para o futuro da empresa, mas as declarações do próprio CTO mostram que existe um preço interno a pagar por essa transformação acelerada.
A questão agora é perceber se a Meta conseguirá recuperar a motivação dos seus colaboradores enquanto tenta liderar uma das corridas tecnológicas mais importantes da atualidade.



