A divisão de memória da Samsung bateu recordes de vendas no primeiro trimestre de 2026. Mas em vez de celebrar, a empresa está agora a lidar com a maior greve de sempre na sua história.
São 48.000 trabalhadores a ameaçar parar. A paragem está marcada para começar esta quinta-feira e tem a duração prevista de 18 dias — salvo acordo de última hora ou intervenção do governo sul-coreano.
O paradoxo é evidente: a Samsung nunca ganhou tanto dinheiro com chips. E os trabalhadores nunca estiveram tão insatisfeitos.
O problema está nos bónus
O núcleo do conflito é simples: os trabalhadores acham que não estão a receber a sua parte dos lucros.
A Samsung tem um tecto para os bónus fixado em 50% do salário anual. O sindicato quer que esse limite seja abolido e exige ainda que a empresa destine 15% do lucro operativo anual à distribuição pelos trabalhadores. São duas exigências concretas, com números em cima da mesa.
A comparação com a SK Hynix torna tudo mais evidente. A segunda maior fabricante de chips DRAM do mundo, também sul-coreana, foi mais longe do que qualquer outra empresa do sector: removeu completamente o seu tecto de bónus. O resultado foi imediato. Em 2025, os trabalhadores da SK Hynix receberam bónus três vezes superiores aos dos colegas da Samsung — e a diferença está a pesar nas decisões de carreira de muita gente.
A Samsung já está a perder funcionários para a concorrência. Não é uma fuga em massa, mas é um sinal que a gestão não pode ignorar por muito mais tempo.

Uma divisão dentro da divisão
O problema não afecta apenas a Samsung como um todo. Há uma tensão interna dentro da própria divisão Device Solutions (DS), que agrupa três negócios distintos: memória, System LSI (design de chipsets) e foundry (fabrico de chips para clientes externos).
A memória vai de vento em popa, impulsionada pela procura crescente de chips para inteligência artificial. O LSI e a foundry, nem por isso — ambos os segmentos continuam sob pressão, com margens mais apertadas e menos encomendas do que o esperado.
A proposta da Samsung é premiar sobretudo os 27.000 trabalhadores da memória, com bónus que podem ser até seis vezes superiores aos dos colegas do LSI e da foundry.
O sindicato recusa. A posição é clara: todos pertencem à mesma empresa, à mesma divisão, e criar categorias internas de trabalhadores de primeira e de segunda é injusto. Há também um receio prático: se os trabalhadores do LSI e da foundry se sentirem desvalorizados, vão procurar outras opções — e essas opções existem no mercado sul-coreano de semicondutores. A SK Hynix, neste momento, é uma alternativa muito atractiva para quem sente que não está a ser bem tratado.
O que está em jogo para a Coreia do Sul
Para perceber a dimensão real do conflito, é preciso olhar para além da Samsung.
A empresa representa quase um quarto das exportações totais da Coreia do Sul. Não é apenas uma empresa grande. É uma peça estrutural da economia de um país inteiro — e uma paragem prolongada tem consequências que ultrapassam os portões das fábricas.
A previsão de crescimento económico para 2026 era de 2%. Um responsável anónimo do banco central sul-coreano estima que a greve pode retirar 0,5 pontos percentuais a esse valor. Os efeitos serão contidos desde que a paragem não ultrapasse a janela dos 18 dias. Se o conflito se arrastar, o cenário muda.
Injunção parcial e arbitragem em cima da mesa
A Samsung não ficou à espera. A empresa pediu a um tribunal que obrigasse parte dos trabalhadores a manter-se nos postos. O tribunal aceitou, concedendo uma injunção parcial que obriga 7.087 funcionários a continuar nas suas funções para preservar operações essenciais e evitar danos nas linhas de produção.
Do lado do governo, há outro mecanismo disponível: a arbitragem de emergência. Se for activada, suspende a greve por 30 dias e abre espaço para negociação mediada entre a empresa e o sindicato.
Por agora, as negociações continuam. A greve começa na quinta-feira, salvo surpresa.




