A Apple poderá estar a preparar uma mudança estratégica na sua cadeia de fornecimento de memória. Segundo o conhecido analista Ming-Chi Kuo, a empresa de Cupertino está a pressionar o Governo dos Estados Unidos para permitir a compra de chips DRAM à fabricante chinesa ChangXin Memory Technologies (CXMT), numa altura em que o mercado enfrenta um aumento significativo dos preços e uma crescente escassez de memória.
A notícia surge poucos meses depois de a Samsung ter aumentado os preços da memória RAM em cerca de 100%, um aumento que, segundo os rumores, a Apple aceitou sem negociar. No entanto, a preocupação da empresa parece ir muito além dos custos: a disponibilidade de memória poderá tornar-se um problema sério nos próximos anos.
A escassez de memória pode prolongar-se até 2027
De acordo com Ming-Chi Kuo, o mercado de memória DRAM está a entrar numa fase particularmente delicada. O analista acredita que a pressão sobre a produção continuará pelo menos até 2027, à medida que os fabricantes direcionam cada vez mais capacidade de produção para o setor da Inteligência Artificial.
A própria Lenovo já alertou que os atuais aumentos de preços poderão deixar de ser temporários e transformar-se no novo padrão da indústria.
Grande parte da procura está a ser impulsionada pelos centros de dados dedicados à IA, que necessitam de enormes quantidades de memória de elevado desempenho. Como consequência, sobra menos capacidade para produzir chips destinados a smartphones, tablets e computadores pessoais.

Apple procura alternativa à Samsung e outros fornecedores
Segundo Kuo, a Apple pretende evitar depender exclusivamente dos fornecedores tradicionais, como a Samsung, a SK hynix ou a Micron.
É aqui que entra a ChangXin Memory Technologies (CXMT), atualmente o maior fabricante chinês de memória DRAM. A Apple estará a tentar convencer as autoridades norte-americanas a não incluírem a empresa na chamada Entity List, uma lista de restrições comerciais que impediria qualquer colaboração entre empresas norte-americanas e determinados fabricantes chineses.
No entanto, o caso está longe de ser simples.
A CXMT encontra-se igualmente associada à lista negra do Pentágono devido a alegadas ligações ao setor militar chinês, tornando qualquer acordo comercial altamente sensível do ponto de vista político.
Inteligência Artificial está a consumir cada vez mais memória
A crescente aposta das empresas em soluções de Inteligência Artificial está a alterar profundamente o mercado dos semicondutores.
Ming-Chi Kuo estima que 15% a 20% da capacidade atualmente destinada à produção de memória para eletrónica de consumo em 2026 possa ser desviada para centros de dados e infraestrutura de IA já durante 2027.
Esta mudança afeta particularmente a memória LPDDR, utilizada em praticamente todos os smartphones modernos, incluindo os futuros iPhone.
O analista acredita que esta escassez poderá levar a Apple a reduzir entre 10% e 20% as encomendas de memória previstas para o futuro processador A20, destinado aos equipamentos que deverão chegar entre o final de 2026 e o início de 2027.

Nem a Apple escapa ao aumento dos custos
Os preços da memória DRAM e NAND Flash têm vindo a subir de forma consistente ao longo dos últimos meses.
O próprio CEO da Apple, Tim Cook, já reconheceu publicamente que o aumento dos custos dos componentes está a afetar a empresa, embora sem revelar detalhes concretos sobre o impacto financeiro.
A entrada da CXMT como fornecedora dificilmente resolveria por completo o problema. A fabricante chinesa continua a possuir uma capacidade de produção bastante inferior à dos principais líderes do mercado.
Ainda assim, para a Apple, contar com um fornecedor adicional poderá reduzir riscos e aumentar a flexibilidade da cadeia de abastecimento, especialmente numa altura em que funcionalidades como a Apple Intelligence exigem cada vez mais memória nos dispositivos.
O resultado poderá refletir-se no preço dos futuros smartphones
Por enquanto, não existe qualquer garantia de que o Governo dos Estados Unidos aprove o pedido da Apple. A decisão terá inevitavelmente um forte peso político e poderá influenciar não apenas a empresa de Cupertino, mas todo o mercado tecnológico.
Independentemente do desfecho, esta situação demonstra que a corrida pela Inteligência Artificial está a criar novos desafios para a indústria dos semicondutores. A crescente procura por memória poderá traduzir-se em smartphones mais caros, menores quantidades disponíveis e ciclos de desenvolvimento mais complexos nos próximos anos.
Para os consumidores, isso poderá significar que os futuros dispositivos premium, incluindo os próximos iPhone, enfrentem aumentos de preço ou disponibilidades mais limitadas caso a escassez de memória se agrave.




