A Apple enfrenta um novo processo judicial depois de três utilizadores terem perdido um total de 1,8 milhões de dólares (cerca de 1,65 milhões de euros) através de uma aplicação fraudulenta disponível na App Store. A queixa, submetida num tribunal federal da Califórnia, aponta falhas graves na moderação da loja um problema que põe em causa a promessa de segurança que a empresa repete há anos.
Uma carteira digital que nunca existiu para iOS
James Ramirez, Christopher Ellis e Jalen Delgado são os três visados por esta burla. Entre maio e agosto de 2025, descarregaram o que julgavam ser a Sparrow Wallet, uma aplicação legítima de gestão de Bitcoin. O problema? A verdadeira Sparrow Wallet nunca teve versão para iOS existe apenas para Windows, macOS e Linux.
Quem criou a versão falsa conseguiu contornar os controlos da Apple e publicar uma aplicação que usava o mesmo nome e aparência. Depois de os utilizadores introduzirem as suas credenciais e transferirem fundos, as criptomoedas desapareceram diretamente para carteiras controladas pelos burlões.

Avisos ignorados e respostas tardias
Craig Raw, o programador responsável pela Sparrow Wallet legítima, tentou várias vezes alertar a Apple para o problema. Segundo o processo, Raw reportou a existência de aplicações fraudulentas mas teve dificuldades em obter qualquer resposta útil da empresa.
A situação tornou-se ainda mais absurda quando, em janeiro de 2024, Raw avisou publicamente que as aplicações falsas continuavam disponíveis mesmo depois de reportadas. Mais recentemente, tentou publicar uma aplicação de aviso na App Store uma espécie de alerta público para proteger utilizadores mas a Apple bloqueou-a e suspendeu temporariamente a conta do programador por “atividade desonesta”. A suspensão foi revertida, mas o aviso nunca foi publicado.
Um padrão de segurança posto em causa
O processo argumenta que a Apple construiu a sua reputação em torno da ideia de que a App Store é um espaço seguro, ao contrário de lojas alternativas ou instalações fora do ecossistema oficial. Durante mais de uma década, a empresa usou esse argumento para justificar o controlo apertado e as comissões de 30% sobre tudo o que é distribuído através da plataforma.
Os três queixosos sustentam que essa promessa de segurança foi quebrada. Alegam que a empresa falha repetidamente em responder a denúncias e que aplicações fraudulentas semelhantes continuam a aparecer na loja, mesmo depois de casos anteriores terem sido reportados. O processo pede indemnização pelos prejuízos financeiros e uma condenação por negligência.
Moderação que não acompanha o volume
Este caso levanta a questão de como é que uma aplicação claramente fraudulenta que imita um produto inexistente para a plataforma consegue passar pelos filtros automáticos e pela revisão humana que a Apple garante fazer. A Sparrow Wallet nunca teve presença no iOS, o que tornava a fraude detetável com uma pesquisa básica.
Para utilizadores europeus, casos como este reforçam a importância de verificar a origem de qualquer aplicação financeira antes de a instalar. Confirmar diretamente no site oficial do programador se existe versão para iOS é um passo simples que pode evitar perdas irreversíveis.
A Apple ainda não comentou publicamente o processo. Enquanto isso, o debate sobre a eficácia da moderação da App Store volta a ganhar força especialmente num momento em que a empresa enfrenta pressão regulatória na Europa para abrir o ecossistema a lojas alternativas.
Via: shiftdelete




