A DS Automobiles vai abandonar a Formula E no final da temporada 2025/26 e, à primeira vista, pode parecer apenas mais uma saída de uma marca de um campeonato. Mas a realidade é bem diferente. Este é o fim de um ciclo de 11 anos que ajudou a construir a identidade elétrica da DS e, mais importante do que isso, a forma como a marca desenvolve os seus carros hoje.
Este fim de semana, no circuito de Jarama, durante a conferência de imprensa a que tivemos acesso, ficou claro que a decisão não surge por acaso. A própria marca assumiu que este é “um momento muito importante”, não só pelo fim da presença na Formula E, mas também porque coincide com uma nova fase da gama, marcada pelo lançamento de modelos como o novo DS N°7 e pela consolidação da estratégia elétrica.
11 anos que deram credibilidade… e resultados
Se há coisa que não se pode apontar à DS é falta de sucesso na Formula E. Ao longo destes 11 anos, a marca participou em mais de 150 corridas, conquistou 55 pódios, 18 vitórias e quatro campeonatos. Mas mais do que os números, há um ponto que a própria marca fez questão de sublinhar: a credibilidade.
Quando venceu os seus primeiros títulos, a DS provou que conseguia competir com as melhores equipas do mundo e, mais do que isso, que conseguia ganhar de forma consistente. Isso deu-lhe uma posição muito diferente dentro da indústria, deixando de ser apenas mais uma marca premium para passar a ser uma referência no desenvolvimento de tecnologia elétrica.

Da pista para a estrada: aqui está o verdadeiro impacto
Um dos pontos mais interessantes abordados em Jarama foi precisamente a ligação direta entre a Formula E e os carros de produção. Muitas vezes fala-se desta transferência de tecnologia como algo quase simbólico, mas no caso da DS, essa ligação é bastante concreta.
A travagem regenerativa, por exemplo, foi diretamente inspirada nos monolugares da Formula E e hoje é um dos elementos-chave nos modelos elétricos da marca. O mesmo acontece com a gestão de software, cada vez mais sofisticada e baseada em soluções desenvolvidas em ambiente de competição, onde cada detalhe conta.
E depois há a aerodinâmica, um tema que a DS destacou várias vezes. Num carro elétrico, reduzir o arrasto não é apenas uma questão de performance, é uma forma direta de aumentar a autonomia. E aqui entra um dos exemplos mais claros desta evolução.
DS N°8 é o reflexo de tudo isto
Segundo a própria marca, o DS N°8, com uma autonomia que pode chegar aos 750 km, é o verdadeiro resultado destes 11 anos na Formula E. Não é apenas mais um modelo elétrico, é o culminar de tudo aquilo que foi aprendido em competição, desde eficiência energética até gestão térmica e otimização de sistemas.
Isto muda completamente a forma como olhamos para a presença da DS na Formula E. Não foi apenas uma aposta de imagem ou marketing, foi um investimento direto no desenvolvimento tecnológico que hoje está disponível para os clientes.
Então porquê sair agora?
A resposta parece simples: porque o ciclo está completo. A DS sente que já retirou o máximo valor possível da Formula E e quer agora explorar novos caminhos. A aposta passa pela vela de competição, através da SailGP Team France, que a marca vê como um novo laboratório para trabalhar áreas como aerodinâmica, materiais compósitos e software.
Pode parecer uma mudança radical, mas a lógica mantém-se exatamente a mesma. Em vez de desenvolver tecnologia em pista, passa a fazê-lo na água, num ambiente igualmente exigente e altamente focado na eficiência.

Stellantis mantém-se… mas muda as peças do jogo
Apesar da saída da DS, a Stellantis não está a virar costas à Formula E. A partir de 2026/27, será a Opel a assumir o lugar, com dois monolugares GSE a competir durante pelo menos quatro anos. Isto mostra que o grupo continua a ver valor na competição, mas prefere rodar as suas marcas consoante os objetivos de cada uma.
Esta abordagem já tinha sido vista com o regresso da Citroën ao desporto automóvel, e reforça a ideia de que a Formula E funciona como uma plataforma partilhada dentro do grupo.
Mais do que uma saída, é uma transição
No final, a saída da DS da Formula E não deve ser vista como um abandono, mas sim como uma transição. A marca entra numa nova fase, mais focada na aplicação prática de tudo aquilo que aprendeu ao longo destes anos.
E há aqui um detalhe importante: a DS sai no topo. Sai com títulos, com resultados e, acima de tudo, com impacto real nos seus carros. Isso dá-lhe liberdade para mudar de direção sem deixar dúvidas sobre o seu percurso.
Num setor onde muitas marcas entram e saem de competições sem deixar marca, a DS conseguiu fazer exatamente o contrário. E isso, honestamente, pode ser o maior triunfo destes 11 anos.





