EUA e Canadá têm terras raras para reduzir dependência da China, mas há um problema

Um estudo da Universidade de Michigan conclui que EUA e Canadá têm reservas suficientes de terras raras, mas alertam para os elevados custos de exploração e a necessidade de cooperação.

Os Estados Unidos e o Canadá poderão ter capacidade para reduzir significativamente a dependência das importações de terras raras, mas essa transição dificilmente acontecerá sem um forte investimento público e uma estreita colaboração entre os dois países. Essa é a principal conclusão de um novo estudo realizado pela Universidade de Michigan, que analisa o potencial norte-americano para garantir o abastecimento destes materiais estratégicos.

Embora existam reservas suficientes em ambos os territórios, os investigadores alertam que a exploração continua a ser muito mais cara do que recorrer às importações, sobretudo provenientes da China, que domina atualmente este mercado.

Terras raras são essenciais para a tecnologia moderna

Apesar de pouco conhecidas do grande público, terras raras como o neodímio, praseodímio, disprósio e térbio desempenham um papel fundamental na indústria tecnológica.

Estes elementos são indispensáveis para fabricar os ímanes permanentes utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamento militar e inúmeros dispositivos eletrónicos. Sem eles, os motores elétricos seriam significativamente mais pesados e menos eficientes, tornando-se um componente crítico para a transição energética e para a segurança nacional.

Terras raras

A China continua a dominar o mercado

O principal desafio identificado pelo estudo prende-se com os custos de produção.

Desde a década de 1980, a China investiu fortemente na exploração mineira, no processamento e na cadeia de distribuição das terras raras, permitindo-lhe controlar atualmente cerca de 70% do mercado mundial. Esta posição garante-lhe uma enorme vantagem competitiva, tornando extremamente difícil para novos produtores competirem apenas com base no preço.

Segundo os investigadores, caso os Estados Unidos e o Canadá aumentem demasiado rapidamente a produção, poderão provocar uma queda dos preços internacionais, colocando em risco a viabilidade financeira das novas empresas do setor antes mesmo de estas conseguirem consolidar-se.

Nem todas as reservas têm a mesma qualidade

Outro dos desafios apontados é a qualidade dos depósitos existentes na América do Norte.

Com exceção da mina de Mountain Pass, na Califórnia, a maioria dos jazigos apresenta concentrações inferiores às encontradas na China ou na Austrália. Ainda assim, o estudo considera que essa diferença não é suficientemente significativa para inviabilizar os projetos.

Os autores defendem que, com incentivos governamentais ou num cenário de preços elevados das matérias-primas, a exploração poderá tornar-se economicamente sustentável. Além disso, parte dos custos adicionais da extração poderá ser compensada através do desenvolvimento de capacidade local para processamento e fabrico.

Terras raras

Cooperação entre EUA e Canadá será essencial

A investigação destaca igualmente que os dois países possuem recursos complementares.

Os Estados Unidos dispõem de reservas suficientes para abastecer a procura de terras raras leves, como o lantânio e o neodímio. Já no caso das terras raras pesadas, como o disprósio e o térbio — fundamentais para ímanes que operam a altas temperaturas — o Canadá desempenha um papel estratégico.

Segundo os investigadores, apenas uma colaboração estreita entre ambos permitirá criar uma cadeia de abastecimento suficientemente robusta para resistir a eventuais crises internacionais ou restrições impostas por outros fornecedores.

Procura continuará a aumentar

A urgência em desenvolver uma produção própria ganha ainda mais relevância perante as previsões para os próximos anos.

O estudo estima que a procura global de terras raras passe de cerca de 91 quilotoneladas em 2024 para aproximadamente 150 quilotoneladas em 2040, impulsionada sobretudo pelo crescimento do mercado dos veículos elétricos, das energias renováveis e da indústria tecnológica.

Os investigadores, que publicaram as suas conclusões na revista científica Resources, Conservation & Recycling, já estão a preparar uma nova fase do trabalho. O objetivo passa por avaliar se as reservas conhecidas destes quatro metais críticos serão suficientes para responder ao crescimento esperado da produção de veículos elétricos até 2050.

Bruno Xarope
Bruno Xarope

Bruno Xarope escreve sobre tecnologia, smartphones, mobilidade elétrica e inovação no CtrlShift.pt. Acompanha diariamente as novidades do setor e testa regularmente novos equipamentos, partilhando análises, opiniões e primeiras impressões.

Artigos: 1711

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *