
IA transforma o regresso às aulas em Portugal, será bom ou mau?
As pesquisas por IA generativa cresceram 90% em Portugal. Agentes de IA aumentaram 1.820%, levantando novas questões sobre o futuro do estudo.
O regresso às aulas em Portugal está a ser marcado por uma mudança significativa na forma como os estudantes estudam, organizam informação e se preparam para os exames. Nos últimos 12 meses, a Inteligência Artificial generativa deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para assumir um papel cada vez mais presente nas rotinas de aprendizagem.
Os dados do Google Trends mostram um crescimento de 90% nas pesquisas por Inteligência Artificial generativa em Portugal no último ano. Ao mesmo tempo, ferramentas relacionadas com análise de informação, organização de conteúdos, criação de apontamentos e apoio aos trabalhos escolares registaram aumentos expressivos na procura.
Os números ajudam a perceber como a tecnologia está a entrar na mochila dos estudantes e a transformar algumas das tarefas associadas ao estudo.
A IA está a entrar na rotina dos estudantes
O interesse pela Inteligência Artificial generativa aumentou 90% nos últimos 12 meses em Portugal, tendo o maior pico de pesquisas dos últimos cinco anos acontecido em março de 2026.
Mas a evolução não se limita à procura pelo conceito de IA. Ferramentas especificamente orientadas para estudar, organizar informação e trabalhar conteúdos também estão a ganhar popularidade.
Um dos exemplos é o Gemini Notebook, um assistente de pesquisa e análise que permite organizar e resumir informação exclusivamente com base nos documentos e fontes carregados pelo utilizador. As pesquisas por este tópico cresceram 340% nos últimos 12 meses, tendo atingido o seu valor máximo em maio de 2026.
A evolução é particularmente interessante porque demonstra que a utilização da IA começa a ultrapassar a simples procura de respostas. Organizar documentos, resumir matéria e trabalhar grandes quantidades de informação são tarefas cada vez mais associadas a estas ferramentas.

Apontamentos continuam a ter um papel importante
Apesar da crescente presença da Inteligência Artificial, os métodos tradicionais de organização do estudo continuam a despertar interesse.
As pesquisas relacionadas com apontamentos e tomada de notas (note-taking) cresceram 70% nos últimos 12 meses, atingindo o máximo em fevereiro de 2026.
É um indicador interessante numa altura em que os estudantes têm acesso a ferramentas capazes de resumir e estruturar informação automaticamente. A necessidade de organizar matéria continua presente, mas existem agora soluções digitais que podem ajudar nesse processo.
Neste cenário, a IA pode funcionar como uma espécie de assistente de estudo, ajudando a transformar informação dispersa em conteúdos mais organizados e fáceis de consultar.
Trabalhos de casa e exames também impulsionam a procura
O interesse por trabalhos de casa também cresceu em Portugal. As pesquisas relacionadas com este tópico aumentaram 50%, tendo sido registados valores particularmente elevados no início de janeiro e novamente entre o final de março e o início de abril.
A preparação para exames segue a mesma tendência. A consulta de exames de anos anteriores e provas modelo (past papers) registou um crescimento de 20% no acumulado do ano.
Estes dados mostram que a procura por recursos de apoio ao estudo não acontece apenas no início do ano lectivo. Existem períodos específicos em que os estudantes procuram mais intensamente ferramentas que os ajudem a organizar matéria, realizar trabalhos ou preparar avaliações.
Agentes de IA explodem em popularidade
Um dos dados mais impressionantes está relacionado com os agentes de IA.
As pesquisas por este tópico aumentaram 1.820% nos últimos 12 meses, atingindo o seu pico máximo em maio de 2026.
Os agentes representam uma evolução relativamente às ferramentas generativas tradicionais, uma vez que podem assumir tarefas mais complexas e realizar diferentes etapas de um processo.
No contexto educativo, este crescimento levanta uma questão importante. Quanto mais autónomas forem estas ferramentas, maior poderá ser a sua utilidade para ajudar um estudante mas também maior será a tentação de simplesmente entregar-lhes o trabalho.

IA no estudo: evolução ou risco?
É aqui que estes números começam a levantar uma discussão que vai muito além da tecnologia.
Será que esta crescente utilização da Inteligência Artificial pelos estudantes é uma coisa boa ou má?
A resposta não é necessariamente uma ou outra.
A IA pode ser uma ferramenta extremamente útil no processo de aprendizagem. Pode ajudar a explicar um conceito que não ficou claro na aula, apresentar uma matéria de outra forma, organizar apontamentos, criar perguntas para testar conhecimentos ou ajudar o estudante a perceber onde precisa de melhorar.
Neste cenário, a tecnologia funciona como um assistente pessoal de estudo, capaz de acompanhar diferentes necessidades ao longo do percurso educativo.
Mas existe uma fronteira que não deve ser ignorada.
Se a IA começa a escrever trabalhos de casa, resolver exercícios sem que o estudante compreenda o processo ou produzir resumos que são simplesmente copiados e entregues, então deixa de ser uma ferramenta de aprendizagem para passar a ser uma ferramenta de substituição.
E aprender não é apenas chegar à resposta certa.
É pensar, experimentar, errar, procurar informação, comparar diferentes respostas e perceber porque determinada conclusão está correcta ou errada. Se retirarmos todo esse processo, podemos ter estudantes capazes de apresentar trabalhos melhores, mas não necessariamente mais preparados.
Esta realidade poderá obrigar também a repensar a própria forma como ensinamos e avaliamos. Se um aluno tem acesso a ferramentas capazes de responder a praticamente qualquer pergunta, talvez seja cada vez menos importante avaliar apenas a capacidade de memorizar informação e mais importante perceber se consegue compreender, questionar e aplicar aquilo que aprendeu.
O crescimento de 1.820% nas pesquisas por agentes de IA torna esta discussão ainda mais relevante. Quanto mais autónomas forem estas ferramentas, maior será a tentação de lhes entregar tarefas completas.
Por isso, talvez a verdadeira questão não seja “IA na educação: sim ou não?”, mas antes “como podemos utilizar a IA sem deixar que ela pense por nós?”

Uma nova mochila para um novo ano lectivo
Os dados apresentados traçam o retrato de um regresso às aulas cada vez mais digital, no qual a Inteligência Artificial começa a ocupar um espaço significativo nas ferramentas utilizadas pelos estudantes.
A evolução das pesquisas por IA generativa, agentes de IA, ferramentas de apontamentos, trabalhos de casa e exames anteriores mostra que não estamos perante uma única tendência. Está a formar-se todo um ecossistema digital destinado a apoiar diferentes etapas do processo de aprendizagem.
A tecnologia pode tornar o estudo mais acessível, personalizado e eficiente. Mas a diferença entre usar a IA para aprender melhor e usar a IA para não ter de aprender será determinada pela forma como estas ferramentas forem utilizadas.
E talvez essa seja a grande questão deste regresso às aulas: não devemos discutir apenas se os estudantes vão utilizar Inteligência Artificial. Devemos ensinar-lhes a utilizá-la de forma responsável, crítica e, acima de tudo, sem substituir a capacidade de pensar.
A IA já entrou na mochila. Agora falta perceber se vai ser usada como ferramenta para aprender ou como atalho para deixar de o fazer.



