
Kobo rejeitou 45% dos livros submetidos em 2025 devido a conteúdos gerados por IA
A Rakuten Kobo rejeitou 45% dos livros submetidos em 2025. A maioria das rejeições esteve relacionada com conteúdos gerados por Inteligência Artificial.
A Inteligência Artificial está a tornar mais fácil do que nunca produzir grandes quantidades de texto, mas essa facilidade começa a criar um problema sério para o mercado editorial. A Rakuten Kobo rejeitou 45% dos livros submetidos através da sua plataforma de autopublicação Kobo Writing Life durante 2025, num processo que envolveu centenas de milhares de títulos. Segundo a empresa, a maioria das rejeições esteve relacionada com livros que aparentavam ter sido produzidos com recurso a Inteligência Artificial.
O número ajuda a perceber a dimensão que o conteúdo gerado por IA já atingiu no mercado dos livros digitais. Com ferramentas capazes de produzir milhares de páginas em pouco tempo, tornou-se possível criar e publicar volumes de conteúdo que seriam simplesmente impossíveis de produzir à mesma velocidade através dos métodos tradicionais.
Para Michael Tamblyn, President e CEO da Rakuten Kobo, esta situação representa um desafio que vai muito além da qualidade dos próprios livros. O problema está também na dificuldade crescente em garantir que autores reais conseguem fazer chegar o seu trabalho aos leitores.
O problema não é simplesmente utilizar IA
A Kobo não defende, contudo, uma proibição generalizada da Inteligência Artificial na criação de livros. A empresa reconhece que estas ferramentas podem ser utilizadas de várias formas durante o processo criativo, desde a organização de investigação à procura de ideias ou revisão de textos.
É precisamente essa utilização parcial que torna difícil estabelecer uma fronteira clara. Um livro pode ter sido escrito por uma pessoa e posteriormente revisto com ferramentas de IA, tal como um autor pode utilizar estas tecnologias para organizar informação ou desenvolver uma determinada ideia. Nesse cenário, considerar que qualquer utilização de IA torna automaticamente um livro inadequado seria demasiado simplista.
O problema identificado pela Kobo está sobretudo na produção em massa de conteúdos com pouca ou nenhuma intervenção humana significativa.
Tamblyn dá um exemplo particularmente revelador. A empresa terá identificado uma editora desconhecida que apareceu de repente com cerca de mil livros. Após uma análise mais detalhada, a Kobo concluiu que não se tratava propriamente de uma editora tradicional, mas de um sistema baseado em vários modelos de linguagem de grande dimensão utilizados para gerar conteúdo em escala.
É precisamente esta capacidade de produção que está a alterar as regras do mercado.

Milhares de livros podem ser produzidos em pouco tempo
Durante décadas, mesmo um livro de baixa qualidade exigia tempo. Era necessário alguém escrever o texto, editar, preparar a publicação e tratar de todo o processo de distribuição. A Inteligência Artificial eliminou grande parte dessas barreiras.
Hoje, uma única pessoa pode utilizar ferramentas de IA para produzir dezenas ou centenas de títulos numa fração do tempo que seria necessário anteriormente. Quando este processo é automatizado, a escala pode aumentar ainda mais.
Para uma plataforma como a Kobo, isto cria um problema complicado. Quanto maior for a quantidade de livros publicados, mais difícil se torna garantir que os leitores conseguem encontrar as obras que realmente procuram.
E essa questão pode acabar por prejudicar precisamente quem produz conteúdo original.
Autores podem ficar escondidos no meio do conteúdo gerado por IA
O receio da Kobo não é apenas ter milhares de livros de baixa qualidade disponíveis na plataforma. A preocupação está no efeito que esse volume pode ter sobre a capacidade de descoberta de novos autores.
Se um escritor independente publicar um livro e tiver de competir pela atenção dos leitores com milhares de títulos produzidos automaticamente, a qualidade da obra pode deixar de ser suficiente para garantir visibilidade.
É uma questão particularmente importante num mercado onde a descoberta depende cada vez mais de recomendações, algoritmos, rankings e resultados de pesquisa. Uma quantidade enorme de conteúdo artificial pode tornar mais difícil distinguir aquilo que merece atenção daquilo que foi simplesmente produzido para ocupar espaço.
Tamblyn resume esta preocupação de forma bastante direta ao defender que os autores precisam de continuar a ter espaço para chegar aos leitores. Se um escritor tiver de atravessar uma enorme quantidade de conteúdo gerado por IA antes de conseguir encontrar o seu público, então a plataforma deixa de cumprir uma das suas principais funções.

A indústria terá de encontrar um equilíbrio
A posição da Kobo mostra que o debate sobre Inteligência Artificial no setor editorial está a entrar numa nova fase. A questão já não passa apenas por saber se um livro foi escrito por uma pessoa ou por uma máquina.
A verdadeira discussão está em perceber como distinguir utilização legítima de IA de produção industrial de conteúdos destinados simplesmente a ocupar espaço nas plataformas.
Uma política que proibisse qualquer livro que tivesse utilizado Inteligência Artificial poderia acabar por excluir obras legítimas. Ao mesmo tempo, permitir uma produção ilimitada e indiscriminada poderia prejudicar autores humanos e tornar as plataformas cada vez mais difíceis de utilizar.
Encontrar esse equilíbrio será um dos grandes desafios para empresas como a Kobo, Amazon ou outras plataformas de publicação digital nos próximos anos.
A questão ganha ainda maior importância porque a sobrevivência da indústria editorial depende da existência de autores capazes de viver do seu trabalho. Se os escritores deixarem de conseguir encontrar leitores ou gerar receitas suficientes, o impacto poderá ser sentido muito para além das plataformas digitais.
A Inteligência Artificial pode facilitar a criação de livros, mas isso não significa necessariamente que seja necessário criar mais livros. O verdadeiro desafio poderá estar precisamente em garantir que, no meio de uma quantidade cada vez maior de conteúdo, os livros que vale realmente a pena ler continuam a conseguir encontrar o seu público.



