O problema do spam musical atingiu proporções que ninguém esperava. Sam Duboff, do Spotify, revelou recentemente um número impressionante: a plataforma foi forçada a eliminar 75 milhões de faixas geradas por inteligência artificial apenas durante 2025. É uma escala de limpeza que diz muito sobre o estado atual da indústria musical digital.
A questão não é nova, mas a tecnologia deu-lhe uma dimensão completamente diferente. Todos os dias, cerca de 100 mil “músicas” diferentes são enviadas para os servidores do Spotify por bots. A esmagadora maioria destas faixas foi criada recorrendo a serviços de IA generativa ou configurações personalizadas baseadas em grandes modelos de linguagem, sem praticamente nenhuma intervenção humana criativa.
Uma equipa dedicada a travar o dilúvio
Para combater esta invasão, o Spotify montou aquilo a que Duboff chama uma “grande equipa” focada exclusivamente em identificar e bloquear vetores de ataque. O objectivo é duplo: travar os carregamentos de conteúdo de baixa qualidade e impedir que empresas usem a plataforma para recolher dados destinados a treinar os seus próprios modelos generativos.
Duboff admite que a inteligência artificial não inventou táticas completamente novas para operações de spam — mas defende que as ferramentas de aprendizagem automática levaram o problema a um patamar nunca antes visto. A facilidade com que qualquer pessoa pode agora gerar dezenas ou centenas de faixas por dia transformou o que antes era um incómodo ocasional numa verdadeira praga digital.

Nem toda a IA é lixo musical
Há uma distinção importante a fazer, e Duboff não a esconde. As 75 milhões de músicas removidas eram conteúdo de qualidade miserável, resultado direto de sugestões preguiçosas lançadas a um chatbot. Mas muitos artistas verdadeiros estão a integrar inteligência artificial nos seus processos de produção de forma legítima e criativa.
Esta realidade torna a linha entre música falsa e trabalho com curadoria humana cada vez mais ténue. Como distinguir uma faixa gerada automaticamente em massa de uma obra onde um músico usou IA como ferramenta auxiliar no processo criativo? É um desafio técnico, mas também filosófico, que a indústria ainda está a aprender a resolver.
Novas etiquetas para um novo problema
A resposta da indústria musical tem sido organizar-se. A Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a RIAA e outras organizações anunciaram um programa voluntário de rotulagem adequada para músicas geradas por IA. A ideia é fornecer uma indicação clara sempre que uma música foi criada por um chatbot, permitindo aos ouvintes tomar decisões informadas.
Claro que um sistema voluntário levanta questões óbvias sobre eficácia e fiscalização. Quantos produtores de spam vão voluntariamente etiquetar as suas criações automáticas? O programa parece mais pensado para artistas legítimos que querem ser transparentes sobre o uso de IA do que para travar quem está na plataforma apenas para acumular reproduções fraudulentas.
O Spotify enfrenta assim um equilíbrio delicado: manter a plataforma aberta a inovação tecnológica e a novos criadores, sem permitir que se transforme num depósito de lixo sonoro gerado em massa. Com 100 mil tentativas diárias de spam e sistemas de detecção em constante actualização, esta batalha está longe de terminar — e o resultado vai moldar o futuro da música digital nos próximos anos.
Via: gadgetreview




