Oliver Blume, CEO do Grupo Volkswagen, acaba de traçar o rumo da marca alemã para os próximos anos. E a mensagem não podia ser mais directa: acabou a era do “carro global” e a gama vai encolher a um ritmo nunca antes visto.
A estratégia assenta em três pilares. Adaptação aos mercados locais, simplificação drástica da gama e um plano de redução de custos para não perder terreno face à concorrência, sobretudo chinesa.
O fim do conceito de “carro global”
Durante décadas, os fabricantes apostaram em modelos praticamente idênticos para venderem em qualquer parte do mundo. Segundo Blume, essa filosofia já não faz sentido para a Volkswagen.
Os mercados exigem coisas diferentes. Na China, os clientes querem tecnologia de ponta. Na Europa, a prioridade é a eficiência e o controlo de emissões. Nos Estados Unidos, o público continua agarrado aos SUV grandes e potentes.
A resposta do grupo passa por plataformas comuns e produção local. Isto significa que a etiqueta “Made in Germany” vai perder protagonismo, mas em troca a marca ganha agilidade no desenvolvimento de novos veículos e poupa em custos de produção.

Menos pessoal, menos modelos
O capítulo mais sensível é o da reestruturação laboral. Blume já admitiu, em comunicações internas, uma desvantagem de custos de 20% face aos principais concorrentes. Isto apesar de os custos de produção nas fábricas alemãs já terem caído 20% em média no último ano.
Para equilibrar as contas, o grupo prepara um plano de cortes que coloca em risco dezenas de milhares de postos de trabalho em todo o mundo. Blume estará mesmo a pressionar para alargar o âmbito destes ajustes, caso isso evite o encerramento definitivo de fábricas de montagem.
A tesoura também vai passar pela gama. A Volkswagen planeia reduzir a oferta de modelos em até 50%, de forma gradual, concentrando-se apenas nos segmentos mais atractivos e rentáveis. A complexidade das opções de configuração e equipamento cai até 75%, o que deve agilizar o trabalho nas fábricas e reduzir custos logísticos.
Os primeiros cinco modelos a desaparecer
Esta redução da gama já tem vítimas confirmadas. As marcas do grupo estão a eliminar os modelos que ocupam nichos minoritários ou que se sobrepõem a alternativas mais bem-sucedidas.
O Volkswagen Touareg, o SUV de grande porte com motor de combustão, deixa de estar disponível ainda em 2026 e já foi retirado dos configuradores em vários mercados europeus.
O Volkswagen T-Roc Cabrio, a variante descapotável do popular SUV, termina a produção em 2027, prova de que as carroçarias de nicho não têm lugar na nova estratégia.
O Volkswagen Touran, o clássico monovolume familiar, foi suprimido definitivamente da oferta da marca, perante o domínio incontornável dos SUV.
O Audi A1 e o Audi Q2 também caem, sem substituto térmico directo anunciado para já.
Já o Volkswagen ID.5, a variante coupé eléctrica, deverá desaparecer por falta de diferenciação técnica face ao ID.4.
O jornal alemão Bild avança ainda uma lista de possíveis próximas vítimas, incluindo o Volkswagen Jetta, o Volkswagen Taos, o Audi Q5 Sportback e modelos da Porsche como o Taycan, o Cayenne Coupé e os desportivos 718 a gasolina. Nenhum destes está, para já, oficialmente confirmado.
O eléctrico continua a somar
Apesar do contexto de contenção, a ofensiva de produto central da Volkswagen não pára. Blume recordou que o grupo liderou o mercado eléctrico europeu em 2025, com uma quota de 27%. Cinco dos dez eléctricos mais vendidos na Europa pertencem às marcas do grupo.
Depois de mais de 30 modelos novos lançados em 2025, a Volkswagen prepara outros 20 para 2026, cobrindo diferentes tipos de motorização, mas sempre com o foco nos segmentos de maior volume e rentabilidade.
A meta final está marcada para 2030. Blume quer uma Volkswagen mais descentralizada, com menos hierarquias, capaz de atingir uma margem operacional entre 8% e 10%, deixando para trás a crise que atravessa actualmente.




