
Ensaio Renault Clio VI Full Hybrid: continua um Clio mas é muito mais carro
Testámos o novo Renault Clio VI Full Hybrid E-Tech 160 Esprit Alpine. Descubra como se comporta, os consumos, conforto, tecnologia e preço.
Há carros que mudam de geração e parecem apenas uma evolução do modelo anterior. E depois há casos como este novo Renault Clio VI, que mantém aquilo que reconhecemos imediatamente, mas aproveita a mudança para dar um passo bastante mais ambicioso. Ao volante, percebe-se rapidamente que a Renault não quis apenas atualizar o seu utilitário mais conhecido: quis torná-lo mais maduro, mais tecnológico e, sobretudo, mais interessante de conduzir.
O novo Clio chega a Portugal com uma imagem bastante diferente. A frente ganhou muito mais presença, as linhas estão mais marcadas e a assinatura visual torna o carro imediatamente reconhecível. Nesta configuração, as jantes de 18 polegadas e os detalhes da versão Esprit Alpine ajudam ainda mais a criar uma imagem desportiva, sem cair no exagero.
É um daqueles casos em que o carro parece maior do que realmente é. E isso também se sente quando nos sentamos ao volante.

Um Clio com outra atitude
O primeiro contacto com o novo Clio VI é dominado pelo desenho. A Renault conseguiu manter alguns dos elementos que fazem parte da identidade do modelo, mas tornou tudo mais expressivo. A frente é particularmente importante nesta mudança, com uma presença que não existia da mesma forma na geração anterior.
O resultado é um Clio que deixa de parecer simplesmente um utilitário simpático e passa a transmitir uma imagem mais adulta. A cor vermelho absoluto da unidade ensaiada também ajuda, assim como as jantes de 18 polegadas, que preenchem bem as cavas das rodas.

Mas é no interior que se percebe melhor a evolução.
A posição de condução é intuitiva e o ambiente está bastante mais cuidado. Os bancos combinam tecido reciclado, revestimento acolchoado e Alcantara, com pesponto azul, criando um habitáculo que consegue ser simultaneamente moderno e relativamente sóbrio.
O volante com acabamento específico Esprit Alpine, a iluminação ambiente e alguns dos detalhes decorativos contribuem para essa sensação de estar num Clio que subiu vários degraus na escala de qualidade percebida.
E há um detalhe importante: apesar de toda esta evolução, continua a parecer um Clio. Não há aquela sensação de entrar num carro completamente diferente ou excessivamente complicado.

Um híbrido que se percebe melhor ao volante
A grande novidade para quem procura a versão mais interessante da gama está naturalmente no sistema Full Hybrid E-Tech 160.
Aqui temos um motor a gasolina de 1,8 litros associado à componente elétrica, com uma potência máxima de 160 cv. A caixa é automática e a combinação funciona de uma forma particularmente interessante em cidade, onde a condução híbrida consegue tirar partido das características do sistema.

O mais importante, porém, não são os números. É a forma como toda a mecânica trabalha.
O Clio responde com facilidade aos comandos do acelerador e não transmite a sensação de estarmos sempre a pedir demasiado ao conjunto. Há uma disponibilidade bastante interessante quando precisamos de acelerar, sobretudo nas situações normais do dia a dia: entrar numa rotunda, ganhar velocidade numa entrada de via rápida ou ultrapassar trânsito mais lento.
Com 160 cv num carro deste tamanho, não falta força. Mas também não é um carro que esteja constantemente a tentar demonstrar aquilo de que é capaz.
E isso acaba por ser uma das suas maiores virtudes.
O Clio sente-se rápido quando é necessário, mas mantém uma condução tranquila quando queremos simplesmente chegar ao destino. É precisamente esse equilíbrio que torna esta motorização particularmente adequada a um carro que será utilizado tanto na cidade como fora dela.
A caixa automática também contribui para esse carácter. Na maior parte do tempo, podemos simplesmente conduzir sem pensar demasiado no funcionamento do sistema híbrido.

Quando a estrada começa a apertar
É aqui que o novo Clio consegue surpreender um pouco.
A direção é leve o suficiente para facilitar as manobras e a utilização urbana, mas não fica completamente desligada daquilo que acontece debaixo das rodas. Quando começamos a procurar uma condução mais envolvente, o carro responde de forma previsível.
As jantes de 18 polegadas dão-lhe uma presença muito própria, mas também ajudam a transmitir uma sensação de maior apoio em curva. O Clio não é um pequeno desportivo, naturalmente, mas a configuração Esprit Alpine dá-lhe um carácter que combina bem com a potência disponível.
É um carro que permite andar depressa sem exigir demasiado do condutor.
E talvez seja essa a melhor descrição do seu comportamento: é fácil de conduzir, mas não é aborrecido.
Nas estradas mais sinuosas, nota-se que a Renault procurou encontrar um compromisso entre conforto e controlo da carroçaria. Não temos um carro excessivamente duro só porque veste a imagem Alpine, nem um utilitário demasiado macio quando queremos explorar um pouco mais o motor.
Essa versatilidade é importante porque, no fundo, é isso que se espera de um Clio.

Conforto para todos os dias
No uso quotidiano, o Clio VI revela outra das suas facetas. A suspensão consegue lidar bem com aquilo que encontramos normalmente nas cidades portuguesas, enquanto o isolamento e a qualidade geral do habitáculo ajudam a tornar as viagens mais agradáveis.
Também não deixa de ser um carro relativamente compacto. Com 4,116 metros de comprimento e 1,768 metros de largura, continua a ser fácil de colocar na estrada e de estacionar.
Nesta unidade, o pacote de estacionamento acrescenta sistema de estacionamento mãos-livres e uma câmara 3D com visão a 360 graus. É precisamente o tipo de equipamento que pode parecer secundário numa ficha técnica, mas que rapidamente passamos a valorizar no dia a dia.
Sobretudo num carro que será utilizado em cidade.
O mesmo acontece com o cartão de acesso e arranque mãos-livres, o carregamento de smartphone por indução, o ar condicionado automático e as várias ajudas à condução. Não são equipamentos que tornem necessariamente um carro melhor ao volante, mas tornam a convivência diária muito mais simples.

O interior é uma das grandes evoluções
Se há uma área em que o novo Clio dá um salto evidente é na tecnologia.
O painel de instrumentos digital de 10,25 polegadas está bem integrado no conjunto e, ao centro, o sistema multimédia com ecrã OpenR Link de 10,1 polegadas concentra grande parte das funções.
A presença de Google integrado torna a utilização bastante mais próxima daquilo que encontramos atualmente num smartphone, enquanto a reprodução do smartphone permite manter as aplicações habituais.

O sistema de som Arkamis Auditorium, com seis altifalantes, também ajuda a criar um ambiente mais cuidado.
Mas, mais uma vez, o interessante é que a tecnologia não domina completamente o interior. Há botões físicos para algumas funções e a utilização geral não obriga a entrar constantemente em menus para fazer operações simples.
Para mim, esta é uma característica importante num carro deste género. Um utilitário moderno deve ter tecnologia, mas não deve obrigar o condutor a aprender a utilizá-lo antes de conseguir simplesmente conduzir.

E os consumos?
A Renault anuncia para esta configuração um consumo combinado WLTP de 4,0 l/100 km, com 5,0 l/100 km no ciclo baixo, 3,4 l/100 km no ciclo médio e 4,5 l/100 km no ciclo muito alto. As emissões combinadas de CO₂ ficam nos 92 g/km.
Na prática, é precisamente em utilização urbana e em percursos mistos que o sistema híbrido faz mais sentido. Não é necessário alterar completamente a nossa forma de conduzir para tirar partido dele. O sistema trata de grande parte do trabalho e permite circular com uma utilização bastante eficiente da gasolina.
Sendo que durante o ensaio conseguimos os valores muito próximos daquilo que a marca anuncia, o que é um excelente indicador.
O depósito tem 39 litros, o que também ajuda a manter uma boa autonomia entre abastecimentos.
Mais interessante é que esta eficiência não vem acompanhada de uma experiência de condução demasiado comprometida. Continua a existir potência suficiente para que o Clio não pareça um carro desenvolvido exclusivamente para poupar combustível.
E esse equilíbrio é provavelmente uma das razões pelas quais esta motorização faz tanto sentido na gama.

Ainda é um Clio, e isso é uma boa notícia
Apesar de toda a evolução, há algo que o novo Clio não perdeu: a facilidade de utilização.
Continua a ser um carro que podemos imaginar facilmente no centro de Lisboa, numa viagem de fim de semana ou numa deslocação diária para o trabalho. Não é demasiado grande, não exige esforço para ser conduzido e consegue adaptar-se a ritmos completamente diferentes.
A bagageira oferece 327 litros, podendo chegar aos 391 litros de acordo com a configuração indicada na ficha, um valor que continua a permitir uma utilização familiar bastante razoável para um modelo deste segmento.
Também não é um carro que obrigue a escolher entre equipamento e carácter. A versão ensaiada traz praticamente tudo aquilo que esperamos atualmente de um automóvel moderno, desde as ajudas à condução até à conectividade.
E há ainda a questão do preço.
A gama Renault Clio VI começa nos 21.990 euros, enquanto esta configuração Full Hybrid E-Tech 160 Esprit Alpine parte dos 28.990 euros. A unidade que conduzimos estava configurada por 31.031,19 euros, já com o equipamento e opções presentes neste exemplar.
É um valor que já coloca o Clio numa zona onde a concorrência é forte. Mas também é verdade que este já não é o mesmo Clio de há alguns anos.

Veredito
O novo Renault Clio VI é uma evolução muito mais profunda do que a simples mudança de geração pode fazer parecer. O desenho ganhou personalidade, o interior subiu claramente de nível e a tecnologia está agora muito mais presente, mas continua a existir uma característica essencial: é um carro fácil de viver.
A motorização híbrida de 160 cv acrescenta ainda outra dimensão. Não transforma o Clio num desportivo, nem pretende fazê-lo. Dá-lhe, isso sim, uma capacidade de resposta que combina muito bem com o carácter do carro e permite juntar consumos potencialmente muito baixos a uma condução que continua a ser interessante.

E é talvez aí que está o maior mérito deste novo Clio.
Não tenta ser aquilo que não é. Continua a ser um utilitário, mas agora é um utilitário bastante mais completo, mais confortável, mais tecnológico e com uma personalidade muito mais forte.
O Clio cresceu. E, felizmente, não perdeu a vontade de ser divertido.



