
Carros elétricos europeus: a Europa está a recuperar a sua identidade?
O Renault 5, o Twingo e o futuro Citroën 2 CV devolvem a esperança aos carros elétricos europeus, com personalidade, identidade e preços acessíveis.
Carros elétricos europeus: a China que se cuide
Confesso que começo a olhar para a indústria automóvel europeia com algum otimismo. Depois de tantos meses a ver chegar cada vez mais marcas e modelos chineses, começo a sentir que os fabricantes europeus estão finalmente a perceber que não precisam de copiar a China para continuarem a ter um lugar importante neste mercado.
Não me interpretem mal. Há carros chineses muito bons, alguns com uma relação entre preço, equipamento e tecnologia que é difícil de ignorar. Mas, no meio de tanta novidade, começo a sentir falta de algo que sempre associei às marcas europeias. A capacidade de criar carros com personalidade, com uma identidade própria e que nos fazem gostar deles por aquilo que são, e não apenas pelos números que apresentam na ficha técnica.
E é precisamente por isso que modelos como o Renault 5, o novo Twingo e o futuro Citroën 2 CV me estão a devolver alguma esperança.

Renault 5, Twingo e Citroën 2 CV. É este o caminho?
O Renault 5 é um bom exemplo de como recuperar um modelo histórico pode resultar. A Renault conseguiu trazer de volta um nome que muita gente conhece, adaptando-o à mobilidade elétrica sem perder aquela imagem que o tornou tão especial. O novo Twingo segue uma filosofia semelhante, com um visual descontraído e uma personalidade que o distingue de muitas das propostas que temos visto chegar ao mercado.
E depois temos o futuro Citroën 2 CV, um carro que me desperta uma enorme curiosidade. O modelo original tinha uma missão muito simples, colocar as pessoas na estrada de forma acessível e prática. Não precisava de ser o mais potente, o mais luxuoso ou o mais tecnológico. Tinha carácter, cumpria a sua função e acabou por se tornar um ícone.
Se a Citroën conseguir recuperar esse espírito numa versão elétrica, com um preço próximo dos 15.000 euros, acredito sinceramente que poderá ter um enorme sucesso. Claro que ainda falta perceber como será o modelo de produção e se esse valor se vai concretizar, mas a ideia parece-me muito interessante.
É este tipo de automóveis que gostava de ver mais vezes. Carros que nos fazem sorrir quando os vemos, que têm uma identidade reconhecível e que não precisam de impressionar apenas pelo tamanho do ecrã ou pela quantidade de tecnologia a bordo.

Por menos de 20.000 euros, quero um carro que me diga alguma coisa
É aqui que entra a minha questão. Olho para a quantidade de modelos chineses que chegaram à Europa e reconheço que muitos são excelentes produtos. Têm tecnologia, equipamento e preços competitivos. Seria absurdo ignorar o trabalho que estas marcas têm feito.
Mas quantos destes carros me despertam a mesma curiosidade que um Renault Twingo ou este futuro Citroën 2 CV? Quantos me fazem olhar para eles e pensar que gostava mesmo de os ter?
É uma questão de gosto pessoal, naturalmente, mas acredito que percebem onde quero chegar. Comprar um automóvel nunca foi apenas uma questão de comparar autonomia, potência ou dimensões. Tudo isso importa, sobretudo quando falamos de carros elétricos, mas há também uma componente emocional que não deve ser esquecida.
Por vezes, gostamos de um carro simplesmente porque gostamos dele. Porque tem um desenho de que gostamos, porque nos lembra alguma coisa ou porque sentimos que tem uma personalidade diferente. E não vejo qualquer problema nisso.
Além disso, nem toda a gente quer ou pode gastar 30.000 ou 40.000 euros num automóvel elétrico. Se os fabricantes europeus conseguirem lançar propostas interessantes por menos de 20.000 euros, com personalidade e capazes de responder às necessidades do dia a dia, acredito que poderão conquistar muitos compradores.
A Volkswagen também parece estar a encontrar o caminho
Depois da desilusão que foram, pelo menos para mim, os primeiros elétricos da Volkswagen, os novos ID. Polo e ID. Cross, juntamente com o futuro ID. Every1, que será produzido na nossa Autoeuropa, em Palmela, parecem mostrar que a marca está finalmente a recuperar a sua identidade.
Ainda é cedo para tirar conclusões, mas os sinais são positivos. Se a Volkswagen conseguir combinar preços mais acessíveis com um design que recupere a identidade da marca e carros pensados para o dia a dia, poderá estar finalmente a encontrar o caminho certo. E o facto de o ID. Every1 estar associado à produção nacional é também uma excelente notícia para Portugal e para a nossa indústria automóvel.
A Europa não precisa de copiar a China
Não quero que esta opinião seja vista como uma crítica aos fabricantes chineses. Pelo contrário, a concorrência que trouxeram ao mercado é importante e obriga as marcas europeias a mexerem-se. E ainda bem que assim é.
O que não quero é que, nesta tentativa de acompanhar a China, a Europa acabe por perder aquilo que a distingue. Temos marcas com décadas de história, modelos que marcaram gerações e uma enorme capacidade para criar automóveis diferentes. Só precisamos de voltar a acreditar nisso.

O Renault 5, o Twingo, o Fiat Panda e o futuro Citroën 2 CV mostram que existe espaço para propostas com outra abordagem. Não precisam de ser os melhores em tudo, nem de ganhar todas as comparações. Precisam de ter uma identidade própria, preços competitivos e argumentos que nos façam escolhê-los também pelo prazer de os ter.
É por isso que começo a olhar para o futuro com algum entusiasmo. Se estes modelos conseguirem cumprir as expectativas e chegar ao mercado com preços realmente acessíveis, talvez a indústria automóvel europeia esteja finalmente a encontrar o caminho certo.
Afinal, por menos de 20.000 euros, que automóvel chinês consegue conquistar-nos tanto como um Renault Twingo ou este futuro Citroën 2 CV?
É uma pergunta genuína, não uma tentativa de desvalorizar o que vem da China. Simplesmente, gostava de voltar a ver a Europa a fazer aquilo que sempre soube fazer tão bem, criar carros com personalidade, com identidade e que nos fazem apaixonar por eles.
A Europa não precisa de ser a China. Precisa de voltar a ser a Europa.
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