A marca britânica Nothing vive dias de contradições públicas. Akis Evangelidis, cofundador da empresa, apressou-se a desmentir um relatório da publicação Digit que apontava para uma saída iminente de 12 mercados globais — incluindo Japão, partes da Europa e Médio Oriente — e despedimentos de 40% da força de trabalho a nível mundial. Chamou-lhe “FAKE NEWS” em letras maiúsculas. O problema? No mesmo comunicado, acabou por confirmar que a Nothing está mesmo a despedir pessoas e a reorganizar-se internamente.
O que a Nothing admite (e o que contesta)
Evangelidis deixou claro que a empresa está a “reorganizar as equipas para preparar a próxima fase de crescimento”, com a criação de uma nova unidade de negócio focada em inteligência artificial. Também reconheceu que “decisões que afetam o sustento das pessoas nunca são tomadas de ânimo leve” — uma forma elegante de dizer que os despedimentos são reais.
O relatório da Digit ia bem mais longe. Além da alegada retirada de mais de uma dezena de mercados, apontava para cortes de 50% nas equipas de investigação e desenvolvimento na China e entre 30% a 40% na estrutura de I&D em Londres. Evangelidis não apresentou números detalhados que desmentissem estas percentagens de forma conclusiva, limitando-se a negar qualquer saída de mercados.

Números de vendas que ninguém contesta (e que preocupam)
Há dados que ambas as partes aceitam, e não pintam um quadro animador para 2026. O Phone 4a e o Phone 4a Pro venderam, somados, cerca de 150 mil unidades. A marca como um todo atingiu aproximadamente 2 milhões de unidades vendidas em 2025 a nível global — volume impulsionado sobretudo por lançamentos mais acessíveis.
O Phone 4b, lançado a 7 de julho, tornou-se um ponto de discórdia. A Digit afirmou que o modelo vendeu apenas 20 mil unidades desde o lançamento. Evangelidis respondeu com um número diferente: 29.537 unidades vendidas só no primeiro dia. Tecnicamente, ambos podem estar certos, dependendo do que cada um define como “unidades” (vendas ao consumidor final versus entregas a distribuidores, por exemplo). Mesmo assim, se quase 30 mil unidades saíram no primeiro dia e o total acumulado é de 20 mil ou pouco mais, isso significa que as vendas praticamente congelaram nas semanas seguintes.
Crescimento na Índia não compensa a pressão global
A Nothing foi a marca de smartphones com crescimento mais rápido na Índia durante o segundo trimestre de 2026, segundo a Counterpoint Research, com uma subida de 105% face ao ano anterior. A série Phone 4a foi o motor dessa expansão. É uma conquista real num mercado extremamente competitivo como o indiano — mas o crescimento percentual esconde volumes absolutos ainda modestos, especialmente quando comparados com as vendas globais decrescentes da marca.
CMF sem lançamentos em 2026
A submarca CMF, focada em produtos mais acessíveis, confirmou que não lançará novos telemóveis em 2026. A razão? O preço da memória multiplicou-se por quatro desde setembro de 2025. Isso forçou o cancelamento do sucessor do CMF Phone 2 Pro, deixando a gama sem um produto-âncora novo este ano. A Nothing não contestou esta informação, o que reforça a tese de que a pressão financeira sobre a empresa é concreta e não apenas ruído mediático.
Entre o desmentido e a confirmação
O episódio deixa a Nothing numa posição delicada. Por um lado, nega categoricamente planos de abandono de mercados. Por outro, admite cortes de pessoal e reestruturação profunda num contexto de vendas em queda e pressão de custos crescente. A falta de pormenores concretos no desmentido — números de mercados, percentagens exatas de cortes, dados de vendas desagregados — torna difícil saber onde acaba a “fake news” e onde começa a gestão de crise de uma empresa que enfrenta desafios reais num mercado de smartphones cada vez mais sufocante para marcas de nicho.
Via: Gizchina




