O tribunal regional de Estugarda recebeu quatro pedidos formais de insolvência da Varta, uma das mais antigas fabricantes de baterias da Europa. A decisão marca o fim de uma era para uma empresa que durante quase século e meio forneceu baterias para praticamente tudo desde aparelhos auditivos a missões espaciais.
O colapso chegou depois de tanto a Porsche como o investidor austríaco Michael Tojner terem recusado continuar a financiar uma estrutura que não consegue dar lucro há anos. Os dois acionistas principais já tinham retirado a empresa da bolsa em 2024 numa tentativa de reestruturação que, afinal, não chegou para inverter a trajetória.
A concorrência asiática esmagou o negócio tradicional
O problema da Varta não é apenas falta de dinheiro no curto prazo. A empresa perdeu quase metade das receitas no segmento de microbaterias entre 2022 e agora uma queda brutal de 47% que expõe a incapacidade de competir com fabricantes asiáticos que praticam preços agressivos.
Enquanto a Varta tentava manter margens no fabrico de baterias especializadas para eletrónica de consumo, os concorrentes da China e da Coreia do Sul inundaram o mercado com produtos mais baratos. A diferença de custos tornou-se impossível de compensar apenas com reputação ou qualidade técnica.
Este não é um caso isolado na indústria europeia. A pressão sobre os fabricantes do continente tem aumentado à medida que as cadeias de fornecimento globais se reorganizam e os centros de produção se deslocam para a Ásia. A Varta é apenas o exemplo mais dramático de uma tendência que preocupa Bruxelas.

Empresa vai ser desmembrada e vendida por partes
Com a insolvência oficializada, o cenário mais provável passa por dividir a Varta em pedaços. A divisão de baterias domésticas considerada a parte mais valiosa do que resta deverá ficar nas mãos do Deutsche Bank e de fundos de investimento especializados em ativos em dificuldade.
Já Michael Tojner terá manifestado interesse específico na unidade que produz microbaterias para aparelhos auditivos, um nicho mais pequeno mas com margens potencialmente melhores do que o mercado de consumo massificado. A estratégia é salvar o que ainda tem viabilidade comercial e deixar cair o resto.
As restantes divisões da empresa, incluindo sistemas de armazenamento de energia e outros ramos secundários, permanecem envoltas em incerteza. Não há garantias de que consigam compradores, e o risco de encerramento puro e simples é real para várias fábricas e centros de investigação.
Europa perde capacidade crítica em tecnologia de baterias
Analistas do setor alertam que a queda da Varta deixa um vazio preocupante no ecossistema industrial europeu. Num momento em que a transição energética exige cada vez mais capacidade de produção local de baterias para veículos elétricos, armazenamento de renováveis e electrónica , perder um jogador histórico complica os planos de autonomia estratégica.
A dependência de fornecedores asiáticos aumenta, precisamente quando a União Europeia tenta reduzir vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento consideradas críticas. O paradoxo é evidente: Bruxelas investe milhares de milhões em apoios à indústria de baterias, mas não conseguiu evitar que uma das suas empresas mais emblemáticas colapsasse.
O desfecho da Varta coloca questões difíceis sobre a competitividade da indústria europeia face à escala e aos custos de produção asiáticos. Resta saber se outros fabricantes conseguirão aprender com este naufrágio ou se estamos apenas a assistir ao primeiro de vários capítulos semelhantes nos próximos anos.
Via: ShiftDelete




